WhatsApp Image 2020-06-16 at 22.21.32.jp

ANDRESSA BITTENCOURT

12 de Novembro, 2019

Andressa Bittencourt tem 24 anos e é concluinte no curso de Direito da Urcamp. Mulher lésbica, nascida em Pelotas, viveu boa parte em Bagé. A entrevista aconteceu no dia 12 de novembro de 2019, realizada por Wagner Previtali e Pâmela Soares.

 
 

Wagner: Nesta pesquisa estamos realizando gravações com pessoas LGBTs aqui em Bagé, estamos buscando as noções dessas vivências aqui na cidade. Queria que primeiro tu se apresentasse, falasse teu nome, tua idade e qual tua relação com a cidade de Bagé.


Andressa: Meu nome é Andressa Bitencourt, tenho 24 anos, sou estudante de direito na cidade. Minha relação com Bagé em si é... eu nasci em Pelotas, mas a maior parte de minha criação se deu aqui, tendo em vista que minha mãe nasceu aqui e minha família por parte de mãe é toda daqui. Em decorrência do divórcio eu acabei vindo morar aqui desde muito nova, desde a pré-escola.


W: Tu mora aqui desde então?


A: Eu voltei algumas vezes pra Pelotas, fiz meu primeiro ano de faculdade lá. Algumas épocas morei com meu pai também lá, mas foram passagens curtas. Morei um ano com meu pai retornei pra Bagé, a maior parte da minha vida eu vivi em Bagé.

W: Tu fez o ensino médio aqui?

A: Fiz ensino médio aqui, fundamental também.

W: Como tu se identifica dentro da sigla LGBT?

A: Me identifico lésbica.

W: Quais atividades costuma exercer em Bagé? Tu falou que trabalha.

A: Atualmente tenho resumido em faculdade e estágio, de vez em quando sempre sobra algum tempo para diversões e alguns passeios com outros fins, mas mais voltado para estudos e estágio mesmo.

W: Como é que é teu contexto familiar?

A: Eu moro com a minha avó e com meu avô atualmente, minha mãe mora aqui na cidade também, mas por algumas desavenças, dificuldades na convivência em si, eu moro e sempre morei maior parte da minha vida com os meus avós maternos.


W: E na tua família a tua identidade quanto lésbica afeta?

A: Hoje em dia não afeta, creio que isso já esteja bem resolvido, mas no início, não sei se por conta de eu ter me descoberto muito cedo e nunca ter evitado demonstrar dentro da minha convivência familiar, no início foi bem complicado.

W: Como foi o processo de tu se descobrir? Quantos anos tu tinha?

A: O processo de percepção é o mais complicado, por exemplo eu tinha alguns comportamentos, alguns pensamentos que eu não entendia, desde muito nova. Eu lembro que eu tinha um sentimento muito diferente por minha professora do pré, eu tinha 6 anos de idade. Eu lembro muito que eu tinha um pensamento muito forte na minha cabeça que eu achava que eu tinha um sentimento por ela como se eu quisesse que ela fosse minha mãe, mas eu não achava aquilo muito justo, porque eu gostava muito de minha mãe, eu não entendia aquilo e eu sofria muito com isso. Hoje em dia eu entendo que na verdade eu meio que tinha um “crush” na professora, mas para mim foi difícil. Não conversava sobre aquilo com ninguém, era muito nova, e era uma coisa que eu também não entendia. E eu acho que este processo de autoconhecimento ele é bem complicado, mas depois quando eu comecei, veio a pré-adolescência, as pessoas começam a se relacionar amorosamente com outras, eu percebia que eu não correspondia de uma forma que minhas amigas esperavam que eu fosse corresponder. Por exemplo “o fulaninho quer ficar contigo”, e eu ficava tipo, “que merda, eu não quero, que droga que tá  acontecendo”. Durante um certo tempo por tu não entender, não ter um conhecimento, eu lembro que eu nem sabia o que era ser lésbica, não sabia que existia esta possibilidade. Durante algum tempo tu vai entrando na onda, tu acabava ficando com alguns meninos mesmo sentindo que não é bem isso. Depois de um tempo, graças a Deus eu me descobri bem cedo, eu tinha uma amiga daí eu também tinha esse sentimento meio esquisito pela minha amiga, parecido com a minha professora do pré e algumas meninas da vã, que tu vai meio que deixando de lado, daí por um descuido, eu lembro que a gente tava caminhando uma do lado da outra, tinha um menino do lado dela, daí o menino bem na hora, ela foi me dar um beijo no rosto, e bem na hora ele me chamou daí meio que ela me deu um selinho. Aquilo foi um marco na minha vida, eu não conseguia mais parar de pensar naquilo, eu passava mal, ficava deitada e sofria com aquilo, tipo “meu Deus o que está acontecendo”, e também não sabia que dava pra ser lésbica. Daí foi acontecendo a partir disto, a gente foi se aproximando, foi recíproco, e acabou que a gente ficou, a partir disso eu fui me entendendo.

W: Isso aconteceu tu ainda tava no colégio?

A: Sim, eu tava no primeiro ano, tinha 13 ou 14 anos.

W: Tu estudou onde?

A: Eu estudei em vários colégios durante o ensino médio, por algumas questões, tinha um comportamento meio explosivo. Mas nessa época estudava no Estadual, ela também.

W: E como era tua relação no colégio?

A: No colégio foi bem intenso nessa época.Tipo o que dá pra perceber hoje em dia, que a gente tem uma visibilidade dentro da cidade que há 10 anos atrás não existia. Na época eu tinha 14 anos e não sabia o que era ser lésbica, não sabia que dava para ser lésbica, é uma diferença bem grande que eu noto. No colégio era bem difícil porque a gente estudava junto, eu não entendia que aquilo podia ser errado, pra começar eu não sabia que aquilo podia acontecer. Como é que aquilo podia ser errado? Eu também era muito nova, acho que por toda uma repressão de interior comigo, eu tinha um comportamento muito explosivo, e isso acarretou várias consequências. Eu lembro de não ficar me escondendo, eu preferi enfrentar aquilo, e quando tomei essa decisão foi bem complicado, chamaram meus pais no colégio, professores na sala de aula me constrangeram. Eu lembro que teve uma vez, nesta época eu tinha cabelo comprido ainda, e eu lembro que teve um dia que, quando uma professora ficou sabendo que eu tava me relacionando com uma menina, ela entrou na aula, do nada, pediu para que eu fosse na frente da sala. As turmas do estadual eram grandes né, daí tá, toda minha turma sentada e ela pegou e me fez dar uma voltinha, “olha aqui meninos” ”olha essa menina linda, é um desperdício ficar se envolvendo com mulher” e todos os meninos começaram a bater nas classes, bater palmas, aquilo foi bem constrangedor. Eu senti que aquilo foi errado, mas eu não tive reação, e aquilo ficou por aquilo mesmo, era bem complicado, por parte dos professores do Estadual foi bem complicado.

W: Havia mais pessoas que eram assumidas?

A: Nessa época que começou acho a repercutir de uma certa forma, as pessoas começaram a se encorajar. Eu conheci outras pessoas que também tinham essa orientação sexual, e um foi ajudando o outro, foi mais ou menos como a gente conseguiu lidar com aquilo naquela época.

W: Tu tinha amigos que eram LGBTs que tu pudesse trocar ideias com eles?

A: Eu conheci o pessoal no colégio, que até então não conhecia ninguém, eu não sei como foi acontecendo as coisas, quando eu vi eu tinha amigas que também ficavam com meninas e amigos que também ficavam com meninos, também o vínculo de amizade se formou por conta da gente precisar de algum apoio, de algum lado. No Estadual era difícil.

W: Tu fala que não sabia oque era ser lésbica, mas tu lembra se tinha pessoas mais velhas, ou se a tua família falava sobre isso, mesmo que com preconceito?

A: Não, eu acho que dentro da família isso sempre foi um assunto que preferiram lidar como “não vamos falar”. Hoje em dia eu sei, mas na época eu demorei muito pra saber que tive um tio gay, e ele teve uma filha e nem a própria filha dele sabe o real motivo da morte dele. Ele morreu por complicações com a AIDS, e a filha dele não sabe disso até hoje, minha família isso era bem… também correlacionaram a AIDS com a homossexualidade, todo um viés preconceituoso por trás. Nunca tinha escutado falar, nem mesmo como viés preconceituoso, eu acho que eu penso que todo esse silêncio e mistério tinha todo um motivo por trás.

W: Tu falou que se descobriu bem cedo, teve mudanças? O que foi percebendo que foi mudando em ti nesse processo de se descobrir, tanto no corpo quanto nas atitudes?

A: Foi mudando bastante coisa, no início foi meio complicado, porque tu te depara com uma não aceitação, tu já passa por um processo que tu não te entende e às vezes tu te nega pra ti mesmo. É um conflito interno, só teu contigo mesmo, teus pensamentos, tu não fala pra ninguém. Como eu mencionei o “crush” pela professora, toda essa função, tinha uma guria na vã também que eu achava bonita e não entendia, só que aquilo não era uma coisa que eu conversava com alguém. Porque eu não entendia, era muito nova, então tu já tem esse processo de autoconhecimento que um pouco tu te nega, porque tu não te visualiza, tu não visualiza isso que acontece em outras pessoas, então tu se pergunta o que ta acontecendo. Daí quando por A ou B tu consegue, ou algo te leva a explanar tuas reais preferências, é difícil também, pois tu te depara com outra repreensão. Daí é da sociedade contigo, quando envolve a família é bem complicado, porque tu já tá meio assim, e simplesmente tu é esculachado.

Tipo na minha casa foi bem difícil, porque na época minha mãe tinha se separado de meu pai, e a gente com meu avô. E meu avô teve uma reação péssima, ele que sustentava a casa, etc e tal...  Eu lembro que eu fui morar na casa de uma tia durante um período, depois eu voltei. Daí tu tem que ter toda uma reflexão, toda uma compreensão contigo, uma compreensão com os outros, e tudo é um processo muito demorado. Eu acho que quando eu me assumi foi bem ruim, eu me sentia muito injustiçada, isso fazia que eu não quisesse escutar as pessoas da minha família, isso desmoralizou eles comigo durante um tempo. Não achava justo aquilo comigo, sempre tive a convicção de que não estava fazendo nada de errado, não estava comprometendo outras pessoas. Mesmo que eu fosse muito nova isso sempre foi um ponto que eu tive bem claro na minha cabeça, que nunca deixou me esconder. E depois que isso vai passando, que as pessoas vão te entendendo, depois que tu vai conseguindo amadurecer a ideia, que as pessoas também precisam de um tempo para raciocinar, aí  teu comportamento começa a… Claro, tu tem que pensar muito para chegar a essa conclusão. Tem que ter uma empatia também com as pessoas, acho que se eu não tivesse esse tipo de pensamento eu teria vivido muito mais tempo da minha vida revoltada com aquilo, e aquilo não fazia bem nem pra mim nem pras pessoas da minha volta, ai depois de um tempo tu vai te reconhecendo, vai entendo o lado das pessoas, vai conseguindo viver com mais tranquilidade, mais em paz com as pessoas que te rodeiam. Acho que nesse sentido, depois que tu consegue entender o contexto geral tu consegue ter uma qualidade de vida muito melhor.

W: E nesse processo de se entender, teve pessoas que foram referências para construir a tua personalidade, ou que te deram força?

A: Hoje em dia eu consigo enxergar a importância da gente se enxergar na sociedade. Mas isso foi uma coisa que eu demorei muito para conseguir reconhecer, até por toda questão de criação e também ignorância de uma certa parte. Então eu não tinha muitas referências, sei lá, não sei. Eu só acho que eu pensava que não estava errada, essa era a ideia principal, como é que eu podia estar errada se eu não tava fazendo nenhum mal para ninguém. Eu até queria ter pesquisado, ter alguma referência, mas não lembro de ter uma.

W: Mas tu acha que Bagé tem uma comunidade LGBT?

A: Tem, hoje em dia pode se dizer que tem.

W: E antigamente?

A: Naquela época também tinha, só que na época era era muito mais escondido.  Eu lembro que na época que eu comecei a sair, eu acho que era Orkut a rede social da vez, mas eu lembro que não existia eventos, era tipo, eu sou lésbica, que conheço a fulaninha que é lésbica, que conhece a fulaninha que é lésbica e é um pouco mais velha, daí as pessoas iam se convidando e eram uns convites meio privados, tipo “hein, vai ter festa” daí não era uma coisa dita. Eram as pessoas que enquanto gays e lésbicas que convidavam gays e lésbicas e só, e não tinha datas também, era do nada e tu tava sabendo por uma pessoa que era gay e era lésbica também.

W: Isso foi quando tu começou a sair aqui em Bagé?

A: Foi.

W: E que época mais ou menos foi isso?

A: Foi há uns 10 anos atrás, mais ou menos, eu tinha 14, 15 anos.

W: Como é que eram essas festas?

A: Não eram muito diferentes, a diferença mais gritante era que não tinha hétero, era só gays, lésbicas e etc, essa era a diferença mais gritante, mas é normal.

W: Eram em casas particulares?

A: Tinha vezes que eram em casas, mas o foco sempre foi ali no Comemore.

W: Tinham nome as festas?

A: Lembro que tinha a Horus, depois teve umas mais recentes que era a Mix Dance, Paradise, mas a mais antiga que eu me lembre o nome era a Horus. A Horus era aqui no salão perto da Receita Federal, entre a Receita Federal e o Posto, ali tem um salão, era ali.

W: E esta ideia de sair, além de festas, quais outros lugares tu gostava de sair para conhecer pessoas ou até amigos?

A: A gente sempre foi para a Praça Esporte.

W: E como era na Praça Esporte?

A: Era meio tenso, a gente ficava ali na nossa, mas as pessoas sempre olhavam para nós, também é uma coisa que hoje em dia não tem tanto, com menos ódio, mas na época eles olhavam como coisas esquisitas mesmo.

W: Tu acha que ainda tem muitos olhares tortos aqui em Bagé? Quais lugares tu evitaria de frequentar?

A: Olha, eu não evito ir em nenhum lugar por conta disso. Mas eu sei que existem lugares que eu com certeza vou ter mais esse tipo de olhar. No início que eu comecei a trabalhar no fórum, era um pouco difícil. Porque é um ambiente que exige até uma vestimenta mais formal, e como eu sou lésbica e não performo a feminilidade é uma coisa também que fica muito gritante, entre aspas, a discrepância entre o esperado pela sociedade e o que eu, entre aspas, posso oferecer. Eu lembro que no meu primeiro estágio eu até pensei “puta merda” que roupa eu vou botar, isso era uma coisa que eu pensava bastante, daí no início pensei vou colocar uma calça mais justa, só que não tinha como. Depois eu caguei pro lance,  foda-se, fui lidando, foi uma coisa que tive que passar. Mas agora já tá muito de boa, hoje em dia já tem ali na OAB a comissão da diversidade, está bem mais desconstruído. Mas no fórum era mais difícil, não gosto muito de ir em formaturas por causa da mesma questão.

W: Quais lugares tu se sente mais tranquila aqui em Bagé?

A: Eu acho que hoje em dia me sinto tranquila em todos os lugares, mas que eu não tive problemas em frequentar, o Tupy nunca tive problema.

W: Festas tu frequenta? Blackout?

A: Faz tempo que não vou, mas já fui, fui na Blackout, esses lugares que acho que são mais receptivos.


W: Tu usava da internet para se relacionar antes? Com pessoas daqui da cidade ou para conhecer gente nova? Porque muitas vezes conversei com pessoas que me disseram que usavam o chat UoL, coisas assim.

A: Não, não usava chat UoL, nem nada assim. Eu me relacionava mais com as pessoas que eu ia conhecendo, que já sabia, que conhecia que se relacionavam com mulher e tal, do colégio, ou minha amiga que conhecia fulana que conhecia sicrana, mais era assim mesmo. Por meio de rede social não muito.

Pâmela: Onde que tu cursa tua faculdade?

A: Na URCAMP.

P: É como é que é pra ti... Você vê uma diversidade na URCAMP? Você percebe a comunidade LGBT dentro da URCAMP? Acha que é visível?

A: Eu acho que a comunidade dentro da URCAMP, sim, eu acho que dentro do curso de Direito é mais restritivo assim. Porque não sei é por conta do curso ou por conta do curso e por conta da cidade que é mais conservadora, e o curso de Direito tem também essa questão de ser tradicional, entre aspas, aqui. Não sei direito se é aqui, sabe? Eu acho que em outros cursos você vê mais pessoas LGBT do que dentro do direito, em si, apesar de eles também existirem, porém, em menor escala...

P: E antes você falou que trocou de escolas, né? Onde foi que estudou mais?


A: Eu estudei... Eu Estudei... É que assim, oh, eu fui expulsa do Estadual. Tinha um comportamento bem explosivo como já falei pra vocês. Aí, eu tive um episódio bem interessante assim... Eu fui tentar fazer minha matrícula, né? Numa escola particular da cidade, aí você tinha que falar com a freira... Tudo bem. Nessa época eu já tinha cortado o cabelo, aí, só que antes de você falar com a freira primeiro você faz o pagamento, né? Tá, aí eu fui lá e fiz a porcaria do pagamento e fui falar com a freira. Tipo eu já tinha entregue o dinheiro, entendeu. Aí a freira disse que simplesmente,  meu, ela não perguntou meu nome, entendeu? Eu sentei na cadeira de freira e ela falou que não tinha vaga. Né! Aí tipo foi “como assim, não tinha vaga? Eu acabei de pagar, ali na frente, sabe?!” Daí foi isso aí mesmo… Meio que foi bem tenso porque fui impedida de fazer a matrícula, né? Aí tá, não consegui estudar no colégio das freiras. Aí, no final, terminei o ensino médio no Caique, lá na CoHab.

P: E como era essa relação lá? Percebia que havia uma visibilidade lá naquele contexto de que você teve no Estadual, mais respeito?

A: Não, no Kaique era bem menos visibilidade, com certeza, bem menos. Olha, eu nem sei, acho que só, não me lembro de outra pessoas LGBT lá.

W: Você acha… Você percebe que exista preconceitos em Bagé?

A: Sim!

W: E você acha que dentro da comunidade LGBT exista esses preconceitos?


A: Também. Também.

W:Pode falar um pouco?

A: Ah, eu acho que tenha preconceito com gays afeminados, eu acho que tem preconceitos com lésbicas, que assim como eu, não performa a feminilidade, eu acho que tem muito preconceitos com as pessoas trans, eu acho que tem muito preconceito com as travestis… Eu acho que gays são bem exigentes quanto à padrões de beleza, né, eu acho que gays que não corresponda assim ao padrão exigido são bem excluídos por outros gays.


W: A gente viu um pouco. Tu acha que tem um preconceito entre meninas bissexuais com mulheres lésbicas?


A:Também. Também.

P: Tu, por não performar feminilidade, já passou por momentos aqui ou em locais em que esteve enquanto morou fora, também, né, você já passou por momentos de preconceito, assim… Você acha que sofre mais preconceito por não performar essa feminilidade?


A: Eu acho que depende. Tipo assim: tem o pró e o contra! O pró é que, se você colocar tipo assim; eu e uma menina feminina, e dizer assim: “elas são as duas lésbicas!”. A minha sexualidade enquanto lésbica não vai ser questionada, entendeu? As pessoas vão aceitar melhor que eu seja lésbica. Porque a mulher que é feminina ela ainda passa por um preconceito que ela não pode ser lésbica, entendeu. Que em algum momento ela vai voltar a se relacionar com um homem. Aí tem outra coisa, também, engraçada, que eu passo que é: as pessoas, às vezes, me tratam como homem, entendeu, tipo, é meio esquisito. Porque daí os caras se sentem à vontade para falar sobre mulher, comigo, me colocam para, por exemplo, teve um casamento da minha madrinha, agora, fazem uma ou duas semanas no máximo. E daí os homens da família vão lá e dançam com a mulher, né? E daí eu sofri uma pressão para dançar com ela também, entendeu, você é meio que tratado como. Não sei se por não saber como lidar, como tratar, pra não ficar na dúvida. Até não sei se foi uma coisa que foi tipo querendo me incluir, sabe? Fazer com que não me sentisse fora do esquadro, digamos assim, mas são coisas que quando fogem do padrão heteronormativo as pessoas ficam confusas, e eu, acabo passando por esse tipo de situação. Não sei se isso implica em um maior preconceito ou um viés maior de sofrimento, acho até que não, sabe, são só peculiaridades de ser como cada um é.

 

W: A gente não tem muito noticiado, mas tu acha que em Bagé tem mais preconceito numa ideia psicológica de repressão? Ou você acha que tem muito casos de agressão aqui? Baseado em preconceito contra LGBTs.


A: Assim, eu não tenho conhecimentos estáticos de agressões, mas eu acho que psicológico, verbal, com certeza, com certeza. Essa questão de repressão, com certeza isso acontece. Até pelos encorajamentos que as pessoas estão tendo pelo cenário político em que a gente está vivendo. Então, isso, com certeza acontece. Agora agressão física não tenho como te dizer se acontece ou não acontece, eu não tenho tido conhecimento desses aspectos, mas em contrapartida eu lembro que uma vez, eu esperava o ônibus com a minha namorada, isso na época do Estadual, esperava numa parada, né, lógico, e aí não tinha a casinha àquela, nem um sinal, só tinha uma placa, eu lembro que a gente sentava num degrauzinho de uma porta de uma casa, e tipo, não era uma coisa exagerada a gente só ficava sentada uma do lado da outra, sabe, mas dava pra ver que éramos namoradas, dava para ver que não éramos só amigas, daí uma vez um cara jogou água quente por debaixo da porta, enquanto estávamos sentadas alí, chegou a ser uma agressão física que eu sofri, mas eu não tenho conhecimento de denúncias de outras pessoas atualmente, não saberia te dizer.


W: Como você acha que as pessoas lidam com o seu relacionamento, como foi esse processo enquanto você assume relacionamentos, como você acha que é visto?


A: Eu acho que as pessoas têm um pensamento meio… Eu acho que o primeiro questionamento que as pessoas, interiormente, elas se fazem é como “como uma mulher pode satisfazer outra mulher?”. Acho que isso com certeza é relacionado ao machismo, enfim, acho que isso é um questionamento que as pessoas fazem. Acho, também, que outro questionamento que as pessoas têm por eu não performar feminilidade é “Se tá com aquela ali que quer se homem porque não pega um homem, então?” Acho que esse pensamento aparece bastante na cabeça das pessoas e, sei lá, Algumas outras pessoas podem lidar com uma maior indiferença, mas eu acho que mais direcionamento ao preconceito mesmo, é nesse sentido que as pessoas conhecem sobre mim, sobre meus posicionamentos, enfim.


P: Voltando quando você falou que passou um tempo em Pelotas. Tu já morou fora daqui também? Além de Pelotas?


A: Morei um tempo em Florianópolis e morei um tempo em Pelotas.


P: E como você percebia a visibilidade da comunidade LGBT nesses outros locais?


A: É bem maior né? É bem maior. Tem uma diversificação muito mais extensa, você vê gente de todos os tipos, sabe, e aqui em Bagé é uma coisa que acontece menos. Não sei se as pessoas se sentem menos encorajadas a serem diferentes, entre aspas, por toda essa repressão da cidade ser tradicional, tem até um viés meio homem do campo e essas coisas assim acho que contribuem bastante para o não aparecimento desse outro tipo de pessoas, até porque, você é mais inclinado a querer sair daqui.

W: Você foi para Floripa, como é que era viver em Floripa? E como que é esse processo de ir e voltar para Bagé?


A: Voltar é horrível, né? Eu não queria voltar de jeito nenhum.  Eu voltei só porque eu tive que voltar. Eu tive que voltar por conta dos meus avós, estavam ficam mais velhos, aí acabei voltando, mas eu não queria voltar de jeito nenhum! Essa época que eu tive que voltar de Floripa…porque assim, eu fui para Pelotas porque eu não queria estudar na URCAMP,  aí não passei na federal, fui pra Pelotas na Católica, aí apertou as contas, tinha que pagar, meus avós que pagavam pra mim, que eu não trabalhava na época, tinha que pagar faculdade e apartamento, aí eu passei em Floripa com bolsa 100% do PROUNI, fui pra lá, só o que aconteceu? O PROUNI faz duas avaliações contigo. E aí lá eu já trabalhava, tinha como sustentar minha bolsa. Aí eles pediram os contracheques da minha mãe, também, e eu perdi a bolsa. E foi uma tragédia, né. Tive que voltar, até ia seguir fazendo faculdade lá, porque ia ter que pagar aqui igual, mas aí a pressão psicológica da família, fica perto da gente, etc, etc, voltei, aí foi bem ruim! Porque, como falei, tu te sente melhor, as pessoas te julgam menos, até mesmo com os olhares, porque elas já são mais habituadas a enxergarem pessoas de diversos tipos caminhando pelas ruas e vivendo suas vidas normalmente, então… E fora todo o contexto da cidade, todas as oportunidades em que a cidade, em si, que é um grande pólo te oferece. Não é igual aqui em Bagé que você é bastante limitado. Tá, daí voltar é horrível, né? Mas aí beleza! Fazer o que, voltei? Voltei! Fazer o quê?


P: E nesses outros lugares costumava ir em festas? Frequentar festas também?


A: Ia bastante também. Lá em Pelotas ia bastante, porque assim, aqui em Bagé, eu não saio para festa hétero, eu não gosto entendeu? Porque é completamente heteronormativo, sempre as mesmas coisas que acontecem, tipo: homens fazem “x” e mulheres fazem “y”. Fora que, às vezes, que fui usar banheiro em festa hétero pra mim é uma tragédia, né? As pessoas, às vezes, me barram! Então eu evito, eu não gosto. Lá em Pelotas já tinha uma diferença, por exemplo, eu conseguia ir no Degraus, na quarta-feira, que é a festa dos universitários. Tipo, eu conseguia ir sem me constranger,  porque o ambiente universitário e as pessoas também tinham uma diversidade maior etc, etc… Em Floripa também, a mesma coisa, era mais mais tranquilo, entre aspas, o ambiente inclusive, de festas.


W: No Degraus você chegava a ficar com outras meninas?


A: Cara… 


W: Isso teve alguma problemática, porque teve alguns casos lá.


A: O Degraus, apesar de conseguir frequentar, tinha um incômodo, sim, no sentido em não poder usar o banheiro sem as pessoas me barrarem. Mas eu já passei por situações por preconceitos lá dentro, de vez em quando você extrapola o aceitado, entre aspas, para eles.


W: Voltando um pouco… Você falou da figura do homem no campo, aqui, como você acha que tu se relaciona com a cultura gaúcha, com essa cultura do campo? Tem alguma relação com, e isso te afeta em algo?


A: Pessoalmente, eu não tive relação com essa cultura. Na verdade, acho isso uma merda. Porque acho que as culturas deveriam ser, também, admiradas, sabes? Não é que eu queria odiar todo os “agrovets” do mundo, entendeu? Mas eu gostaria que eles também não me odiassem, sabe? Isso que é um problema, as pessoas não se respeitam, entendeu? Eu acho legal… Tipo, quer ter campo? Sabe? Que legal meu... É difícil porque as pessoas são ensinadas a esse padrão a essa busca incessante por uma coisa que as pessoas não tem como corresponder, entendeu? Cada um tem a sua peculiaridade, e eu acho que isso faz muito mal a todos, não só para nós enquanto LGBTs mas para eles também. Por exemplo, se um “agrovet”, quiser usar bombacha, corresponder a performance masculina e quiser ser gay? O cara também vai sofrer muito, então, acho que isso é prejudicial para todos, gostaria que isso não acontecesse, mas é uma utopia.


W: Você já frequentou CTG ou espaços assim? Por conta da sua família ou por conta sua?


A: Eu… estranho, eu quando era pequena eu dançava… Quando eu estava, sei lá, no pré na primeira série, mas foi bem rápido minha passagem porque não gostava muito de usar os vestidos e tal e queria dançar com as guriazinhas e não podia, mas foi bem rápido assim…


P: Você tem alguma religião ou já frequentou alguma? 


A: Atualmente, foi uma coisa que demorei para descobrir, mas atualmente sou praticante da religião umbanda. 


P: E como você se percebe enquanto lésbica dentro da umbanda?


A: Não tem nenhum tipo de diferenciação pela minha orientação sexual, eu ser lésbica não tem nenhuma diferença, mas a minha minha mãe de santo nem sempre me permite que use calça. Porque na casa dela ela exige que meninas usem saias e meninos usem calças. Claro, dependendo do tipo da sessão. Mas é só em relação a vestimenta… Eu, particularmente, preferiria usar calças, mas ela não permite!

W: Participa da corrente?

A: Participo!

P: E você já frequentou outra religião? Até com a família ou coisa assim?


A: Já, eu já fui até em igreja evangélica! Já fui em igreja evangélica, já fui centro espírita, já fui na igreja católica, minha avó é católica, muito católica praticante. Já fui em procissão mas não gostei.


W: E na igreja evangélica, ou talvez na católica também, já ouviu coisas diretamente sobre LGBTs ou passou por uma situação assim?


A: Não. Eu fui uma única vez na igreja evangélica com uma tia. E não me recordo especificamente de terem falado sobre isso, era mais: “Sai desse corpo que não te pertence!” etc, etc… Mas era gritaria e “demônio fora daqui”!


W: Agora mais um debate sobre política e tal… Você se percebe representada enquanto uma pessoa LGBT no teu contexto? Você vê essa representatividade?


A: Ah, é difícil, né? Falar sobre política é sempre difícil! Sempre tem um motivo por trás né? É difícil você se sentir representado, não só enquanto LGBT, mas enquanto cidadão, hoje em dia é bem complicado.


W: Que tipo de resistência você percebe por parte das pessoas LGBTs na cidade, em que elas têm dificuldades em lidar? E a cidade também? 


A: Como assim elas têm dificuldades?


W: Quando cria uma resistência de debater ou de trazer alguma pauta?


A: Se você parar para pensar tudo vai ser mais difícil para as pessoas LGBTs, né? Eu acho que elas resistem. Mas acho que resistir, na maior parte do tempo, serão oprimidas de alguma forma. Em tudo. Até mesmo quando você quer dizer: “ah, eu sou lésbica, posso usar uma camisa e uma calça e não estou querendo dizer que sou homem”, uma coisa básica, mas sempre tem um para questionar: “Se não quisesse ser homem não usava!”. Do básico a tudo, tudo.


W: Tu lembra de momentos históricos que tenham sido marcantes em afetar a qualidade de vida de pessoas LGBTs? Tu lembra de um momento que tenha sido marcante para pensar que aumentou ou diminuiu direitos?


A: Ah, eu acho que a questão da adoção. Do reconhecimento do casamento. Acho que esse tipo de assunto de reconhecimento de direitos às pessoas LGBTs são momentos históricos marcantes, né?


W: Você sabia da relação de Bagé com essa questão de adoção? Foi a primeira cidade do Brasil que conseguiu o direito de adoção!


A: Uhum!...


W: Você se sente representada dentro da sigla LGBT? Ou você acha que precisamos evoluir nesse quesito de visibilidade, nesse debate político, a questão das mulheres lésbicas dentro da sigla LGBT?


A: Apesar dessa representação, ela precisa ser fortificada, está num caminho bom. Acho que é mais ou menos por aí.


W: Tu sente que tuas vivências estão sendo representadas nas mídias ou produções culturais? Tu vê espaços que falam sobre isso hoje em dia? 


A: Eu acho que as pessoas estão buscando falar mais sobre isso. O pessoal, apesar da resistência por parte do conservadorismo, as pessoas não se deixam calar, as pessoas estão mais empenhadas.


W: Mas lembra de alguma coisa específica em que tenha visto e pensando: “Ah, que legal!”, ou, “Ah, essa história mexeu muito comigo e tal!”, falando também de mulheres lésbicas ou falando de vivência próxima?


A: Eu acho que num sentido mais amplo do LGBT, né, acho que existam filmes e séries, mas nesse sentido assim, tratando sobre a problemática da aceitação da família, tratando sobre os direitos, pessoas fazendo reportagens sobre isso, dando visibilidade. Acho que não especificamente sobre lésbicas, mas um todo assim, acho que as notícias vem acontecendo né?!


W: E como você acha que o Brasil tem mudado, o que tem acontecido em relação a essa comunidade?


A: Eu acho que as pessoas… Bah, difícil, né? Porque… Por um lado, a gente encontra bastante resistência. Mas eu acho que o mais importante é que as pessoas não estão deixando se calar. Mesmo nesse momento tão conturbado, eu acho que a força das pessoas, da comunidade, que mais fazem a diferença, entendeu? Não no sentido de querer enfiar goela abaixo dos outros alguma coisa, mas no sentido de que as pessoas estão se encorajando a dizer assim “sim, nós existimos, nós estamos aqui, nós temos os mesmo direitos que vocês e não vamos nos esconder e não vamos nos privar de coisas básicas porque vocês não aceitam!” etc, etc… Eu acho que vejo mais mudança no comportamento das pessoas no sentido de se encorajar a existirem mesmo.


W: E aqui em Bagé? Você acha que tem dito mudanças? Lembra de acontecimentos, de atos?


A: Ah, acho que agora tem a parada da diversidade que tem acontecido com alguma frequência. Teve agora, por último, uma manifestação de uma agressão ocorrida na Valley contra um menino gay. A câmara dos vereadores tem conversado comigo, tentaram uma entrevista, me convidaram para participar de uma sessão lá, convidaram o Thomaz que foi, eu acabei não indo porque não lembro o que tinha no dia. Está acontecendo, entendeu? A comissão da diversidade está na OAB, se mostrando bastante presente quando ocorre uma situação de vulnerabilidade por parte de algum integrante da comunidade, então, acho que as coisas estão acontecendo. Eu não sei te precisar ou não tenho como ter uma opinião sobre a efetividade e assertividade dessas atitudes, mas que elas estão acontecendo, elas estão!


W: O que é isso da câmara dos vereadores que comentou?


A: Ah, logo depois que teve a manifestação da Valley, teve um sessão especial falando sobre políticas públicas da cidade para os LGBTs… Agora, não me lembro o nome da vereadora, mas a assessora dela entrou em contato comigo e pediu para que eu fosse lá, acabei não indo, não me lembro o que tinha no dia, mas o Thomaz foi, teve espaço de fala para ele e tudo mais. Agora tem uma, não me lembro do nome dela, jornalista também da câmara, que pediu se eu podia dar uma entrevista para ela, por conta desse acontecimentos, as pessoas ligadas a política tem tentado entrar em contato comigo, com Thomaz e com algumas outras pessoas…


W: Você falou da comissão da diversidade da OAB. Você sabe do papel que eles têm feito, das atividades deles? 


A: Olha, particularmente eu tive um, entre aspas, desentendimento com um professor da URCAMP. E aí, não partiu de mim, eles intervieram, vieram, me contataram, me deram toda uma estrutura jurídica para tomar atitudes contra esse indivíduo. Então, por isso, eu sei que eles têm trabalhado bem, de uma forma bem incisiva para coibir… O presidente da OAB, muito legal, muito coerente e correto, assim.


W: E como tu se relaciona com essa luta dos direitos LGBTs?


A: Eu tento fazer minha parte… me encorajando! As pessoas vão mudar a partir da mudança do nosso comportamento, então, eu tento não fraquejar apesar das dificuldades eu busco estar sempre encorajada, não renegar qualquer coisa proveniente da minha personalidade ou da minha orientação sexual. Acho que é isso, tento fazer minha parte nesse sentido, é o que vai mais cedo ou mais tarde surtir o maior efeito diante das outras pessoas.


W: Tem alguma história que queira relatar ainda?


A: Uma história que queira relatar? Falei da freira. Não, acho que só uma coisa que é legal mencionar, o nosso próprio valor a gente tem que estar ciente dele, né. Esse homem, aí, quando tinha treze/quatorze anos, quando sentava na casa dele com a minha namorada, que me jogou água quente, quando fiz estágio na defensoria eu atendi ele, então, essa foi uma coisa bem legal, assim, sabe? Tinha que fazer atendimento pra ele, resolvi coisas pra ele, então, acho que mesmo que a gente sofra algum tipo de repressão a gente tem que ter consciência do bem que a gente pode fazer a outras pessoas, sabe? Acho que isso que te fortifica todos os dias!


W: Eu vou encerrar então, muito obrigado!


A: Merece!