LEANDRO FEIJÓ

04 de Dizembro, 2019

Leandro Feijó é um homem cis, gay, de 41 anos, professor de curso de inglês. Sua entrevista aconteceu dia 4 de dezembro de 2019, realizada por Wagner Previtali.

 
 

W: Boa noite, estamos fazendo essa pesquisa com pessoas LGBT aqui em Bagé, para a presença dessa história na cidade, contra a ideia de que Bagé é uma cidade mais de “certo jeito”. Gostaria que tu começasse se apresentando, tua idade e qual tua relação com a cidade de Bagé.


L: Eu sou Leandro, tenho 41 anos, vivi praticamente a vida toda aqui, desde pequeno. Sou nascido aqui, morei quando criança alguns anos fora, dois, três anos fora, depois em seguida que terminei o Ensino Médio também morei um ano em Rio Grande, depois voltei pra cá e o resto da vida toda aqui. A minha relação sempre… já pensei muito em sair daqui, principalmente quando eu comecei a minha descoberta, comecei a me entender como homossexual que eu pensava muito em ir para Porto Alegre, pra conseguir viver a vida gay. Hoje em dia já não penso mais isso, já mudei totalmente, não penso, acho que to com a minha vida construída aqui, se fosse não seria para Porto Alegre, com certeza, e fui criando amor pela cidade. Hoje em dia gosto muito mais de estar aqui do que já pensei antes.


W: Tu se identifica dentro da sigla LGBT?


L: Sim, no gay. (risadas)


W: Que atividades costuma exercer hoje em Bagé?


L: Bom, eu sou professor já a 18 anos, hoje em dia já não estou mais em sala de aula em função do acidente que eu sofri no ano passado e também com a entrada da nova escola acabei ficando mais na parte da direção da escola mesmo, mas continuo trabalhando com idiomas. Já trabalhei com teatro há muito tempo, comecei isso no Ensino Médio, e pensava em fazer isso quando eu saí do colégio, mas tinha muito medo de… eu acabei decidindo, pensava ai vou sair daqui, vou pra Santa Maria, que eu pensava em ir, talvez ia me formar, depois disso ia morrer de fome, e acabei entrando no curso de Direito, que também não fiquei muito tempo, fiquei um ano só no curso de Direito. E aí que eu fui morar em Rio Grande, que eu fui chamado para trabalhar no Banco Bradesco que eu tinha estudado no colégio. Depois disso voltei pra Bagé e aí acabei, quando eu saí do banco, começando a estudar inglês, uma coisa levou a outra e hoje em dia eu to aqui, 18 anos já de língua inglesa.


W: Professor de inglês?


L: Aham.


W: Tu estudou no Bradesco?


L: Sim.


W: Como é que foi teu processo de se perceber quanto um homem gay?


L: Eu sentia interesse né, percebia que eu me interessava mais por homens do que por mulheres, mas eu me negava isso. Até porque isso foi há 20 anos atrás, aproximadamente, a realidade era um pouco diferente do que é hoje. Claro que já existia uma revolução em vários outros locais, mas acho que aqui em Bagé era mais complicado de ter isso, então essa coisa de viver em uma cidade dita machista era muito complicado. Meu pai era extremamente machista também, e isso fazia com que eu me reprimisse muito. Tanto que eu lembro quando eu tive meu primeiro namorado, eu tinha 22 anos, e em seguida que a gente começou a se relacionar eu escondia dos meus amigos, até que quando ele chegou pra mim e disse “olha eu preciso te contar, a Daniela sabe da gente” eu surtei, na hora que ele me falou, porque eu não imaginava como seria isso. Aí ele pegou o telefone, ligou pra ela, a irmã do Thomaz, do Thomaz Lahorgue, que faz curso de letras também lá na Unipampa, enfim, ela era minha amiga, eu lembro que ele ligou pra ela, ela me ligou, me falou umas coisas muito bonitas ao telefone e naquele momento ela se tornou minha melhor amiga, porque eu não imaginava que as pessoas pudessem ter essa reação ao saber que eu tava numa relação homoafetiva. E mesmo assim, era sempre muito difícil pra mim, já tava dando aula na época, tinha medo, quando eu saia pra jantar com ele, de as pessoas me ver, e ficava me escondendo, eu vivia me escondendo, durante  muito tempo isso, e fui passando e tive outros relacionamentos, muitos fora daqui, porque, enfim, não rolava de conhecer algumas pessoas aqui. Com relação a minha profissão eu sempre me preocupei um pouco, principalmente depois quando eu comecei a ter a minha escola, eu tinha um pouco de medo de que isso fosse afetar, por exemplo, que algum pai fosse dizer assim “eu não vou matricular meu filho na escola daquele viado porque ele vai enviadar meu filho” e depois com o tempo eu fui entendendo que o erro na verdade tava em mim em perceber isso, porque eu comecei a pensar se tem alguém que é capaz de pensar isso, de que não vai matricular o filho pra estudar comigo porque eu sou gay, eu prefiro que essa pessoa não esteja próxima a mim. E aí eu fui mudar, a mudança teve dentro de mim, agora a minha total aceitação, de estar publicamente, de mostrar minhas relações, de assumir que eu sou realmente gay, embora fosse aquela coisa assim, as pessoas sabiam e eu só não falava sobre isso, eu tinha vergonha de falar sobre isso, e isso foi acontecer comigo bem depois dos 30. Sei lá, quatro ou cinco anos atrás, então meu processo de total, plena aceitação, levou bastante tempo, foi bem difícil.


W: Com vinte anos tu começou a namorar, mas e quando tu era mais novo ou adolescente?


L: Antes disso rolava algumas coisas assim, de se pegar com o coleguinha, algumas coisas escondidas assim, mas sempre muito escondido, eu tinha vergonha disso, eu não aceitava, tanto que eu tentava namorar meninas, tentava ter relação com meninas porque eu achava que era errado, tentava mudar aquilo dentro de mim, chorava com isso, não aceitava. “Eu tenho que gostar de mulher, tenho que ter uma relação, tenho que construir família.”, tanto que eu pensava isso, pensava, me imaginava casado, com mulher e filho, até que foi o processo de aceitação.


W: Tu estudou no Bradesco e em algum outro colégio aqui em Bagé?


L: Fiz o Ensino Médio lá, e a educação básica fiz em escolas públicas perto de onde eu morava. 


W: Teve alguma questão do período escolar, por ser gay?


L: Não, claro é aquela coisa, hoje em dia eu olhando lá atrás, eu imagino assim, quando eu vejo umas crianças que tem alguns trejeitos, porque acaba que a gente sempre tem alguma coisa que revela, e eu vejo isso e eu disse “tá, eu era uma daquelas bichinhas”.


W: Mas não passou por nenhuma situação?


L: Não, não, que eu me lembre não. De ter sido ofendido, coisas assim, não.


W: Como é que foi teu contexto familiar em relação a se assumir? E a partir disso?

L: Minha mãe, muito tranquilo na verdade, minha mãe conversou comigo, ela veio falar comigo sobre isso, lá no meu primeiro namoro, que ela chegou pra mim e disse que ela “olha, sabe que eu sei que tu namora com uma pessoa” e aí eu disse “olha, o que precisa saber sobre isso é que eu gosto muito dele, ele gosta muito de mim, e a gente cuida um do outro”. Depois a gente não conversou muito mais sobre isso. Por que que a gente não conversava abertamente? O problema na verdade não estava nela, o problema estava em mim que ainda não me aceitava, hoje em dia eu to numa relação totalmente aberta, ontem a noite ele foi lá em casa jantar, ela trata ele super bem, meu relacionamento anterior também era a mesma coisa, porque eu fui abrindo mais, eu me abri mais a isso. E a gente pensava assim, porque minha irmã também é gay, e a gente ficava pensando como seria, porque minha irmã tem uma filha, como seria tratar isso com ela, quando ela começasse, porque quando ela é criança, ok, como que a gente vai começar a lidar com isso agora que ela tá começando a ter uma certa compreensão. Daí foi que a gente decidiu, “olha, a gente não tem que sentar e conversar com ela sobre isso, porque se a gente tiver que sentar e conversar sobre isso ela vai entender que é algo que não é normal, a gente simplesmente tem que agir normalmente na frente dela para que ela entenda como coisas normais”, e foi essa a decisão que a gente fez, tanto que a realidade dela é essa de ver que é algo normal.


W: Tua irmã é mais nova que tu ou mais velha que tu?


L: Sim, mais nova.


W: Quando tu era pequeno, e no teu desenvolvimento, tu tinha outros amigos que eram LGBTs e que foram construindo essas identidades juntos?


L: Não, embora teve coleguinha que a gente se pegou, mas não. Tanto que esses coleguinhas eram os ditos “heteros”, e não comentavam.


W: E onde é que aconteciam essas pegações, nas casas mesmo, no colégio?


L: Nas brincadeiras.


W: E tu tinha amigos antes e depois do processo de se assumir e que tenham tido a relação afetada?


L: Não, eu nunca sofri, tu diz em pessoas que viraram as costas depois de eu me aceitar? Não, tem o caso talvez de uma pessoa, que foi uma menina que foi minha namorada, que a gente era amigo e aí a gente teve uma relação e depois quando eu tava com esse primeiro namorado, que eu cheguei pra ela e contei que eu tava namorando ele e tal e ela parou de falar comigo, depois disso. Daí não sei se era em função que a gente tinha se relacionado antes, mas foi a única pessoa, ela nem chegou a me maltratar, só deixou de falar comigo. E eu dei esse espaço, nunca senti, até mesmo no meu processo de trabalho que eu te falei que eu tinha esse medo, nunca senti nada, nem dentro do colégio lá quando eu trabalhava, nunca nenhum aluno me desrespeitou pela minha orientação sexual, nada disso, então não tenho problemas com relação a isso.


W: E o que mudou em ti? Foi fazendo coisas que antes não fazia?


L: Eu só consigo agir naturalmente, consigo ser eu pleno o tempo todo, não preciso ficar escondendo que nem antes. Como dizia a letra do Legião Urbana, que troca os pronomes, que quando ia contar história e tava falando de alguém, tava falando na verdade de um cara e trocava o pronome pras pessoas imaginarem que estava se relacionando com alguma mulher, tipo, não, era como o que eu dizia antes quando eu comecei a me abrir pra algumas pessoas, era de que eu sabia quem era realmente amigo meu, que eram as pessoas com quem eu conseguia conversar abertamente sobre a minha sexualidade, as outras pessoas que eu tinha essa restrição eram conhecidos e tal, e hoje eu vivo plenamente, eu tenho que andar de mão dada na rua eu ando. Pra tu ter uma noção essa coisa da minha aceitação era tão difícil que em 2004, que eu fiz a minha primeira viagem pra fora, que eu fui pra Inglaterra, eu não consegui andar de mãos dadas com o cara que eu fiquei lá, porque eu não me sentia à vontade. E eu tava do outro lado do mundo, sabe? Ninguém daqui ia ficar sabendo, mas era eu comigo mesmo, eu não me sentia confortável com aquela situação.


W: E quando tu era novo, tu lembra da tua família falar de pessoas LGBTs que eram mais velhas, tinha essa consciência da existência de pessoas LGBTs mais velhas?


L: Na família não, na cidade. Tinham ícones da cidade que eram conhecidas.


W: Tipo?

L: O Paulo Figueiredo, que era o Paulinho Vesgo, Dalila, algumas pessoas assim que eram meio ícones, talvez algumas pessoas da vizinhança.


W: Mas lembra se falavam de alguma maneira positiva?


L: Não, era sempre pejorativo.


W: Quais figuras tu acha que foram relevantes para tu construir essa confiança, pra tu se formar, se construir?


L: Tu diz pra eu me sentir seguro, chegar onde cheguei hoje, me sentir à vontade com isso? Sabe que foi o fato de me relacionar com pessoas mais novas, porque eu tive alguns relacionamentos com pessoas bem mais novas que eu, que eram abertas, e ver isso neles começou a fazer eu perceber tipo “como assim sabe, eu sou um homem mais velho, que tem uma história de vida bem mais extensa e fico com medo de fazer as coisas”. Eu lembro que o menino que eu tava ficando, primeira vez que eu beijei um menino na rua em Bagé, que eu me senti à vontade com ele  porque eu via que ele era super aberto com isso, me senti tranquilo. Ai meu relacionamento depois também, a gente começou, sem ser meu relacionamento atual, o anterior, que a gente andava pela rua também, trocava carinho, então é recente mesmo isso. Foram essas pessoas próximas a mim, não teve nenhum ícone.


W: E como tu percebe Bagé na questão LGBT?


L: Eu acho que, analisando isso de quando eu estava começando a me perceber e a realidade que a gente tem hoje, são duas cidades totalmente diferentes. Eu sei que existe ainda, se a gente vai ver aí existe homofobia, essas coisas todas, mas no meu ciclo eu não vejo, onde eu vou, nos locais que eu vou, as pessoas com que eu costumo conviver, eu não vejo isso, sou muito feliz por isso e não vejo nem comigo, nem com pessoas que eu conheço, de ouvir falar “tal pessoa sofreu homofobia aqui dentro”, fora de Bagé sim, violências e tal, mas aqui eu não escuto isso e fico muito feliz em saber disso.


W: Tu acha que tem uma comunidade LGBT?


L: Acho que existe núcleos, não é uma comunidade, unida, que sai em prol de um objetivo único, tem núcleos mais fortes do que existiam antigamente, mas não são todos unidos, acho que um pouco por, enfim, classes sociais, intrigas, seja lá o que for. Por que a gente sabe que existe, é horrível, mas ainda existe esse distanciamento de quem tem menos dinheiro acaba não convivendo com quem tem mais, mas gente, pelo amor de Deus sabe?


W: E quando era mais jovem, lembra se tinha uma comunidade, grupos de pessoas?


L: Aí que esse meu primeiro relacionamento, esse meu primeiro namoro, era as inversas, eu tinha 22 e ele tinha 40 então existia essa diferença de idades grande e ele tinha esse grupo de amigos que era um núcleo também, e aí eu convivi bastante com eles. Mas também, era um núcleo, e eu nem lembro, talvez existiam outros núcleos, mas não tinha… hoje tu tem balada LGBT em Bagé, antigamente tinham pessoas que alugavam, na verdade as próprias gurias da Blackout ali já fizeram isso, que alugavam um salão, antes disso era mais esporádica, as pessoas tinham vergonha de ir, eram feitas em garagens, as pessoas deixavam o carro dobrando a esquina para ir escondido, era uma coisa mais submundo assim, então eram menores esses núcleos, mas eles existiam. 


W: Tu acha que ainda existe preconceitos dentro da comunidade LGBT?


L: Acho que sim, infelizmente, mas acho que isso ultrapassa o LGBT, né, é na sociedade inteira.


W: Que espaços, como é que tu fazia para se relacionar com pessoas quando mais jovem, que lugares, usava redes sociais?


L: Aqui? Não, tanto que eu tinha… eu tive um relacionamento de três anos com um cara do interior de São Paulo. A gente levou um ano e meio para se conhecer e depois namorou três anos, se vendo uma vez por mês.


W: Isso já depois do teu primeiro namoro?


L: Sim. Isso eu já tinha mais de 30, é, dez anos atrás, mas aqui, tanto que namoros aqui eu tive três namoros na cidade, o resto era tudo gente de fora, relação à distância, porque era complicado encontrar.

W: E tu viajava muito para outras cidades, para festas assim?


L: A gente ia bastante a Pelotas, eu e um grupo de amigos, para fazer festa, na época que tinha Odeon, que é onde era o Divas ali. Tinha aquilo e tinha um outro que eu nunca fui que era perto da escola técnica, que era um submundo assim, ali eu não cheguei a ir, mas a gente ia bastante no Odeon e Porto Alegre. 


W: Chegou a ter uma festa aqui em Bagé, ou algum espaço, que tu achava que era mais alternativo, mais para um público LGBT?


L: Eu não acho que um público LGBT mas ele era aberto assim, que era o Ateliê, que o Atelier recebia artistas e tal, e aí que o pessoal envolvido com arte é mais aberto, que o pessoal que já era envolvido com arte, isso vem de tempo, sempre não teve problemas com isso porque são pessoas bem resolvidas e tal, e um espaço como era o Atelier era mais aberto a isso.

 

W: E quando foi a primeira vez que tu foi pra uma festa ou para um espaço que era mais voltado para o público LGBT?


L: Foi no Venezianos em Porto Alegre. E foi na verdade quando eu tive uma transformação, eu digo que eu passei por uma… sabe a transformação da Xuxa, que as pessoas se transformam fisicamente? Quase um Queer Eye assim. Eu lembro que eu fui com esta mesma amiga, a irmã do Thomas, eu saí para caminhar em Porto Alegre e descobri o bar, o Venezianos, eu fui até a casa dela e falei pra ela, ela disse “ai vamos lá” e a gente foi num domingo a noite e eu lembro que ela ficou com um menino e eu não fiquei com ninguém, fiquei me sentindo um lixo, sabe, vou num lugar LGBT, ela pega alguém e eu não pego ninguém e aí na segunda-feira eu saí com uma outra amiga e eu tipo fui pro shopping, cortei o cabelo, comprei roupa nova, passei o dia de transformação e voltei no mesmo bar na terça-feira. Dai sim, na terça-feira tudo mudou, enfim mudei, acho que mudou um pouco dentro de mim, mas também de certa forma entrando nos padrões do mundo LGBT e tal, sabe que existe isso né.


W: E como é que foi assim, estar nesse lugar, que tu sentiu isso. Como foi estar a primeira vez nesse lugar que era pra um público LGBT?

L: Foi maneiro, primeiro dia não tanto, mas o segundo que eu já comecei a curtir, e aí foi um lugar que sempre, por mais que eu fosse a outros lugares, eu sempre voltava lá. Lá eu tinha que ir, acho que tinha esse vínculo de ter sido o primeiro lugar. 


W: E que lugares tu vai para se divertir em Bagé, conhecer pessoas?


L: Hoje em dia eu to mais na linha bar mesmo, sentar e conversar, ouvir um bom som, e daqui não tenho saído muito, em função do acidente e tal, mas curto balada também, antes do acidente eu costumava ir a Pelotas, saia TheWay, e curto me juntar bastante com os amigos em casa, acaba sendo uma boa alternativa. Eu lembro agora, lembrei de um episódio lá da minha primeira relação, foi a primeira vez que eu vi uma foto minha beijando um outro cara, que me causou um estranhamento muito grande, primeira vez que eu vi assim, na hora, eu levei um tempo para digerir a informação, foi estranho, não sei te dizer, eu lembro que eu olhei, não sei se tu chegou a passar por isso, quando tu via, quando tu era pequeno, às vezes via alguém maior se beijando e sentia um pouco de vergonha, foi mais ou menos essa mesma sensação, não sabia explicar aquela sensação e fiquei olhando aquela foto e levei um tempo para digerir assim.


W: Mas essa foto foi amigos que tirou?


L: É, foi uma viagem com esse primeiro namorado, que a gente foi pra praia e uns amigos tiraram uma foto da gente, e aí quando eu vi aquela foto da gente se beijando, foi bem estranho.


W: Tu tem alguma relação com a cultura gaúcha?


L: Já tive, aí isso foi antes do processo de aceitação lá, aí adolescência, 17 e 18 anos, dancei em CTG, tinha namoradinha.


W: Mas nesse meio tu teve situações…


L: Não, mas sei de várias histórias, conheço histórias.


W: Tu falou que tinha preocupação por ser professor e o preconceito, mas tu nunca passou por alguma situação?

L: Eu lembro de uma vez só, num colégio que eu trabalhei, que tinha uma relação com os nomes dos professores que ia dar aula no horário e alguém escreveu do lado do meu nome assim “puto”, e aí alguém da escola deve ter visto e tirou, eu vi aquilo e alguém foi lá e tirou a folha, mas nunca ninguém chegou pra mim e falou, nunca ninguém tentou me ofender, me desrespeitar.


W: Quando tu trabalhou em colégio particular teve alguma vez que te proibiram de falar alguma coisa, ou teve alguma proibição por parte de superiores?


L: Não, inclusive, aquele meu namorado lá de São Paulo, ele tava pensando em vir pra cá e a diretora do colégio ia contratar ele para ajudar a gente. Tanto que ela, já quando eu tava namorando o Rodrigo mesmo, a gente ia nos eventos, ela recebia, todo mundo sabia da minha relação, não escondia, e foi sempre muito tranquilo.


W: Tu se percebe representado quanto pessoa LGBT? No contexto, na mídia.


L: Eu acho que vem melhorando. Acho que em Bagé bastante, mas no país de uma forma geral, a cena como era 20 anos atrás e o que é hoje. Ainda tava olhando, na Parada eu tava pensando isso, eu vendo esses grupos assim, esses núcleos, e aí eu pensando “pô, que legal essa galera tem bem mais gente pra se apoiar uns aos outros” tanto que a galera acaba se aceitando mais fácil, mais cedo, porque acaba vendo outros que tem coragem de ir ali, e aí um apoia o outro, é bem mais tranquilo. Eu me sentia meio que sozinho, na minha relação não tinha muitas pessoas, não tinha com quem conversar, com quem me sentir a vontade pra isso, acho que por isso que eu acabei levando mais tempo pra me aceitar realmente.


W: Tu participou já de outras paradas da diversidade?


L: Não, da diversidade não, só participei em Porto Alegre, eu participei da Marcha das Vadias.


W: E quando isso?


L: Ah, faz uns quatro anos.


W: Tu tem um envolvimento mais político na luta?

L: Não, até assim, eu era do sindicato dos professores, do ensino privado, e tinha um outro colega gay também, dos diretores, que a gente começou a conversar bastante de algumas coisas que queríamos lutar por direitos. Como por exemplo o fato de que se dois professores adotam uma criança, como os dois são homens, ambos só tem direito a cinco dias de folga, enquanto que se duas mulheres adotam, uma delas tem direito a ficar quatro meses com a criança em casa, como se fosse uma gestação, e aí a gente tava falando “mas isso não pode acontecer, isso tem que mudar”, numa relação um dos dois tem que ter pelo menos o direito de ficar quatro meses com as crianças. E aí era algumas coisas que a gente discutia de tentar adotar isso dentro do sindicato, mas como eu acabei me afastando depois.


W: E sabe se teve algum avanço nessas questões?


L: Não, porque deixei de ter contato.


W: Tu lembra de mudanças políticas na questão LGBT que tu acha que teve impacto real na tua vida ou de pessoas que tu conhece?


L: Eu acho que a lei da adoção, que facilitou, conheço pessoas que conseguiram adotar aqui em Bagé.


W: Isso, inclusive a gente descobre que em Bagé teve o primeiro caso do Brasil.


L: Tenho alguns amigos que tem, inclusive, um grupo que trabalha isso, porque querem trabalhar para desburocratizar, tem muita criança aí esperando pra ser adotada e uma burocracia gigante aí pra tirar as crianças, e não só para casais homoafetivos, mas para qualquer tipo de adoção.


W: Tu acha que dentro da comunidade LGBT, na verdade entre os homens gays, que tem uma dinâmica específica, como a questão de ativos e passivos? Se há a necessidade de estipular esses papéis?


L: Sim, e eu acho que há um tempo atrás, acho que hoje em dia talvez tenha mudado um pouco, mas há um tempo atrás era visto como se o passivo fosse mais viado que o ativo, o ativo é o homem da relação, o macho, e acho que essa coisa parou um pouco, é uma questão de quem sente mais prazer com o que e aceitar isso, aceitar que tu sente mais prazer de uma forma ou de outra. Tanto que conheço casais aí, pessoas, tem um casal de conhecidos meus que estão juntos há quinze anos e ambos são ativos e isso não quer dizer que eles não tenham uma relação interessante. Acho que existe um pouco, mas tem como ser trabalhado isso.


W: Queria voltar mais pra tua juventude, então até tu ter uns vinte e poucos anos se relacionava mais escondido, não tinha festas ou espaços assim que tu ia?


L: Não.


W: E primeira festa que tu foi aqui em Bagé, especificamente para público LGBT, tu lembra qual foi?


L: Foi uma dessas assim, em que alguém, bem antes da Paradise, quem fazia na época era o Marcelo Trojan, hoje em dia ele mora em São Paulo eu acho, e ele fazia decoração de festas, aniversários, e como ele tinha contato com os salões, acho que foi em função disso, e ele começou a alugar esses locais para fazer. Depois disso quem fazia muito era a Angélica, da Delta, e ela também fazia festas, e aí depois disso, bem depois, que começou a ter, que a Carla começou a fazer.


W: Lembra o nome dessas festas mais antigas?


L: Eu não lembro se elas tinham nome, acho que não tinha nome, era tipo festa do fulano, tinha outras festas que aconteciam ali perto do Banco do Brasil.


W: E como tu se aproximava das pessoas que tinha interesse? Como tu foi conhecendo as pessoas que se relacionou?


L: Internet e nessas festas, quando ia para Porto Alegre, em algum bar, alguma festa.


W: Internet tipo quais?


L: Ah gente, era Mirc, MSN, [Chat Uol?] talvez, sim o Chat Uol era o Grindr de hoje em dia, tava lá no tesão vai pro Uol resolver, e o Mirc era usado dessa forma também.

W: Mirc?


L: Era um programa para bate-papo, e tinham salas, tinham várias salas, tinha Bagé, Pelotas, e tal, acabava falando sempre com o pessoal de Pelotas, que aqui não tinha muita gente também, pelo menos LGBT não tinha, não tinha sala LGBT Bagé, só tinha a sala Pelotas LGBT.


W: E tu lembra se tinha lugares aqui em Bagé de pegação?


L: Tipo cruising assim? Não. Eu tive, durante bastante tempo, relação com alguém de dentro da família, um namorado de uma prima, que hoje são casados. [Mas ela não sabia daí?] Não sabe até hoje. Ele que deu em cima de mim, era dois, três anos mais novo que ele, e foi antes do meu primeiro namorado. E era uma daquelas relações puramente sexuais, até porque ele era hétero.


W: Tu tem também uma relação com o teatro, sei que chegou a fazer um filme com a Óli, fez mais coisas com o teatro?


L: Eu fiz em uma escola de Santa Maria um curso, daí fiz algumas peças de teatro dentro do curso, e com isso comecei a ir pra Santa Maria também, comecei a conhecer um pouco lá também, acabei me relacionando com pessoas dentro do curso, que aí dentro do teatro é mais fácil encontrar o povo, normal.


W: E como é que tu vê agora que Bagé tem lidado com a questão LGBT? Vê avanços? E o que achou da parada?


L: Sim, tem avançado. Eu não lembro se cheguei a ir em outras paradas, acho que cheguei a ir em uma que teve na praça esporte. Até tava falando com o Henrique, que entra aquilo, se tu for analisar, grande parte das pessoas que estavam ali eram lá da vila, tu não via pessoal de uma certa classe social, porque nós temos pessoas que poderiam estar ali, lutando também, porque a luta é de todo mundo, não é só da galera lá da vila, e não sei se essas pessoas ainda tem vergonha de fazer isso, não querem se envolver.


W: Acha que ainda têm essa questão em Bagé, das famílias, do nome?


L: Acho que já melhorou bastante mas ainda tem gente, até porque a gente sabe que tem casos aí de vários caras casados que estão vivendo essa vida de mentiras.


W: Porque tu decidiu ficar em Bagé? O que te faz gostar de Bagé?


L: O que fez eu aprender a viver aqui e não querer sair daqui? Eu acho que qualidade de vida, de estar perto de tudo, até a violência de outros lugares dá um pouco de medo, essa coisa também de ai, vai pra Porto Alegre e ficar 3 horas do teu dia no trânsito, com medo o tempo todo, aqui não, aqui tu anda tranquilamente, tu caminha de noite aí, sem andar com medo, já fui assaltado em Pelotas e fiquei com medo lá, fiquei um bom tempo sem conseguir voltar lá, e aqui casa, trabalho, é tudo muito rápido, é mais fácil, e tu consegue ter tempo pros teus amigos, tu consegue ter tempo pra fazer tuas coisas. E aí Ok, tu pensa assim, “ah tu vai pra uma cidade dessas e tem muito mais coisa pra fazer” mas eu também conheço pessoas que moram nesses lugares e não conseguem fazer essas coisas porque não tem grana, ou porque é tudo muito longe. Acaba que às vezes, tenho amigas mesmo de Porto Alegre, hoje em dia não tenho ido tanto, mas quando eu ia com mais frequência eu aproveitava mais Porto Alegre do que elas, porque daí eu chegava lá e eu ia pra isso e elas não, ficava naquela rotina corrida do dia-a-dia, não faziam nada, e o tempo livre que tem acaba nem vendo os amigos, aqui não, qualquer tempinho tu vai, vê os amigos, e tu consegue ter essa qualidade, essa relação mais próxima com as pessoas que tu gosta. Acho que foi um pouco disso que foi fazendo mais eu querer ficar aqui.