NÁGILA CAMPONOGARA

Dizembro 2019

Entrevistadores: Pamela Soares Jardim e Rosiméri Goulart
Entrevista com Nágila Camponogara, Mulher, 25 anos, Bisexual, Co-Fundadora da Festa Blackout.

 
 

Pâmela: Boa tarde Nágila.. Então, essa pesquisa é parte do projeto Memória LGBT que está sendo realizado na Unipampa, que tem como intuito trazer um pouco da memória LGBT de Bagé que tu tenha aqui e que tu tenha construído aqui em Bagé. Vou pedir pra ti falar primeiramente teu nome, tua idade e como que tu te identifica na sigla LGBT. 


Nágila: Meu nome é Nágila Camponogara, eu tenho 27 anos e eu me identifico, no momento, como lésbica… mas… na verdade eu me identifico como bi, mas no momento sou lésbica. (risos)


Pâmela: (risos) E como é que é a tua relação com a cidade de Bagé?


Nágila: Eu nasci aqui, vivi fora… meu pai trabalhou no Uruguai, então eu vivi alguns anos lá, no Uruguai mesmo e depois eu fui pra Livramento, depois voltei pra Bagé e ano passado eu morei meio ano em Rio Grande.


Pâmela: Uhum.. e como é que é a tua relação com a tua família? 


Nágila: Em relação a eu ser lésbica?


Pâmela: Isso


Nágila: Então, agora é super tranquilo… meu pai e a minha mãe trabalham comigo e a minha namorada janta e almoça com a gente, mas antes não era assim.


Pâmela: E tu te importa um pouco de falar como era antes?


Nágila: Ah… Assim, antes (talvez eu responda algumas perguntas de vocês enquanto eu vou falando), eu me identifiquei bi/lésbica, enfim, no ensino médio, eu jogava futsal (risos) não sei porque sempre tem essa ligação, mas eu praticava esportes e tudo mais e aí conheci algumas meninas e senti atração… eu acho que eu já tinha sentido atração, mas não assim de “a meu deus, eu quero beijar uma garota”, mas no ensino médio rolou e aí eu beijei (risos) e aí eu vi que eu curtia e a minha mãe não aceitou tão bem na época, meu pai eu nem cogitava falar pra ele… aí a mãe falou que não queria que eu jogasse e tudo mais, na época eu acho que foi uma tentativa falha de me privar de eu viver no mundo LGBT… mas aí a gente teve uma conversa e eu falei pra ela que em qualquer lugar existe pessoas LGBT e se eu tivesse que ir no mercado e encontrar uma menina que vai me chamar a atenção eu vou encontrar e enfim… aí tudo bem, passou… em seguida, logo ela tentou, como eu era menor de idade né, me segurar em casa e tal, não me deixava eu sair e aí eu fui trabalhar e fui morar sozinha, logo cedo assim, pra ter minha liberdade. Aí eu comecei a trabalhar, construir minha vida profissional e aí eu acho que mudou a cabeça dela talvez, de alguma forma e ela entendeu, acho que ela também leu a respeito, bastante, e de repente ela já estava aceitando de boa e conheceu todas as minhas namoradas e conviveu super bem com todas… e o pai, enfim, eu não falava, não falava, por medo e enfim, e ele foi o mais de boas, nem precisou falar e ele só riu de mim o dia que eu resolvi tocar no assunto, porque ele já sabia, já aceitava.


Pâmela: Uhum.. e qual é a tua primeira memória LGBT aqui na cidade?


Nágila: Hum… poxa…


Pâmela: Tem alguma.. por exemplo, tu te assumiu bem nova, tem alguma festa que tu lembre? algo assim?


Nágila: É, até a primeira guria que eu fiquei, não foi em Bagé, mas eu conheci através de jogo, em outra cidade, não foi em Bagé.. Mas em Bagé foi com uma melhor amiga minha (risos).


Pâmela: E como tu morou fora, tu já te identificava como bi/lésbica quando morou lá?


Nágila: Não, eu era muito pequena… mas agora em Rio Grande sim, eu já tinha tido namoradas, acabei conhecendo a Bruna, que é a minha atual namorada, lá e infelizmente eu vivo um romance a distância (risos).


Pâmela: (risos) e como é que tu percebe a comunidade LGBT aqui e lá em Rio Grande?


Nágila: Ah, tem diferença... Bagé é uma cidade de pessoas velhas, que não aceitam... e Rio Grande, acho que por ter a FURG lá, que é uma faculdade mais antiga, é cidade de porto também e muita gente vai trabalhar lá, eu acho que mistura mais as culturas, não sei e eles tem a mente bem mais aberta... tanto que eu gosto bastante de ir pra lá, sempre a gente aproveita, até pra Blackout mesmo, pra ideia de festa e tudo mais, porque aqui em Bagé, a gente tem até medo as vezes de testar... bom, não vamos longe, a festa feminista que a gente tentou não deu certo e lá deu.


Pâmela: E como é que surgiu a ideia da Blackout? 


Nágila: Na verdade, a Blackout surgiu, a Nathália é minha ex e minha sócia, não sei se vocês sabiam?


Pâmela: Que é tua ex não (risos), mas que é tua sócia sim


Nágila: (risos) Sim, a gente namorou e aí a gente virou muito amigas e, ela trabalhava aqui, antigamente era a empresa dos pais dela de distribuição de bebidas e eu trabalhava em eventos na AABB, e daí a gente tava muito amigas (depois de muito se matar né) (risos), aí a gente resolveu que ia fazer uma festa porque eu tava virando DJ, eu tinha comprado o curso e tal, tava aprendendo... aí eu pilhei ela e tal "vamos fazer", ai ela tinha o dinheiro e eu as idéias, e aí a gente investiu e deu certo... aí quando a gente viu que tava dando certo mesmo e se a gente arriscasse e fizesse virar um negócio, ia dar certo, a gente largou as duas o emprego e abriu CNPJ e legalizou tudo.


Pâmela: E como é que tu perceber, tu que trabalhava como DJ, como é que foi essa relação de ser DJ e sócia da festa?


Nágila: É difícil! Porque assim, eu gosto de produzir eventos, mas assim, eu gosto de tocar... aí eu tenho que dividir os tempos assim, geralmente como a Nati dorme até um pouco mais tarde, eu uso a manhã pra fazer minhas coisas de DJ e aí de tarde a gente vem pra cá e faz as coisas da Blackout... mas é complicado... é complicado mas ao mesmo tempo eu não teria crescido tanto se eu não tivesse a blackout e a blackout não teria crescido tanto se eu não me dedicasse pra tocar, entendeu? eu acho que os dois, um alavanca o outro.


Pâmela: E vocês fazem festas, já fizeram em Dom Pedrito, em Rio Grande, e...?


Nágila: A gente começou a produzir fora quando a página Gina Indelicada, uma página de humor, fez uma postagem dizendo que queria vir pro Sul e tal, e como a gente tava produzindo bastante coisa alternativa na cidade, e o único local assim que tinha era o Ateliê e ele fechou, e aí o que acontece... a gente até não era tão alternativo, porque sei lá, a gente tinha nosso estilo, não era tão alternativo como o Ateliê, eu frequentava mas eu notava que não era tanto assim. Só que eu acho que a galera alternativa, do público que era do Ateliê, ficou carente e como a gente era a festa mais próxima do respeito que eles queriam, entendeu? E aí tipo, acho que foi se construindo um público diferente. E a Gina na época, eu acho que pelo Henrique ser gay também, a galera tudo nos marcou, por ser uma festa diferente, em Bagé, a única festa que teria coragem de produzir e trazer a festa a Gina Indelicada e tal, eu acho que seria nós né, e por isso começaram a nos marcar e a gente viu que chovia comentário nos marcando e a gente "bá" nunca tinha trazido gente de fora né e a gente tinha juntado uma grana em caixa e era o aniversário da Blackout de, 3 anos, eu acho... era 1 ano, e aí a gente já tinha regularizado tudo e a gente tinha juntado uma grana e era caro pra trazer ele, eu lembro que a gente... arriscar assim alto é ruim, porque tu não sabe se vai dar certo ou não, né? e a gente tinha que pagar passagem aérea pra trazer ele de São Paulo pra cá, tinha que pagar custo de hotel, tinha que pagar um monte de coisa.. ai tá, a gente trouxe ele, produziu, foi sucesso... eu arrisco a dizer que foi a festa que nos deu maior visibilidade, até em Pelotas e Rio Grande ficaram sabendo que a gente que tava trazendo e tal, e ele tava com alguns problemas de produção em Rio Grande, por conta de chegar lá, vender super bem a festa, só chegar lá no meio da noite e acabar a bebida 3 horas da manhã ou a bebida estar quente, tipo coisa de logística sabe? Aí ele disse "ba gurias, to com um problema em Rio Grande... vocês não pilham de produzir lá?" porque aqui tinha sido tudo massa na festa, tipo, sobrou bebida, bebida gelada e tudo e aí a Nati tem casa lá né... e aí a gente calculou assim, despesas e tudo... ué, dá! Mas aí tem que se vender a festa e ele "não.. vender, eu vendo a festa" porque a gente não tinha contato lá, não tinha nada né... Aí ele fez marketing, ele é muito bom nessa parte né, e aí vendeu a festa e foi um sucesso lá em Rio Grande e a gente fez a festa ser perfeita em relação a estrutura... Aí ele falou "Vamos pra Santa Maria.." e aí a gente foi... só que em Santa Maria a gente teve muito mais gasto, porque a gente não tinha hospedagem né, e os hotéis eram muito caros e recém tinha acontecido o esquema da KISS e aí a gente teve que pagar um monte de imposto, e aí deu prejuízo a festa... Mas foi boa, porque a gente levou o nome da Blackout para Santa Maria. E aí, surgiu Pelotas, que na época ele tava com atrito com a The Way e tal, aí ele disse "Ah... vocês estão produzindo Santa Maria e Rio Grande, então vamos pra Pelotas"... só que aí a gente meio que mordeu a isca... ele tinha tido briga com a The Way e aí claro, ele queria seguir fazendo em Pelotas, e aí ele largou pra nós, a gente meio que se indispôs na época com a The Way, depois conversamos, fizemos as pazes e tal, mas aí foi que a gente conseguiu, com a Gina, abrir as outras cidades e aí a galera das outras cidades viu que a gente tinha produzido os eventos e que tinha sido bom a produção em si e aí a gente começou a fazer outros eventos que eles foram, tipo, comprando a ideia... claro que com isso a gente também foi conhecendo o público, fazendo contato... e aí, de repente a gente já tava em várias cidades.


Pâmela: E como é que tu percebia essa diferença das festas em outros locais, maiores, e aqui em Bagé? Tu percebia algum tipo de preconceito, por serem em cidades maiores e aqui uma cidade menor?


Nágila: É que também tem outros fatores né... Tipo, Santa Maria tem muito mais o número de habitantes, é muito maior, Rio Grande também, só que sempre teve mais público nas outras cidades... Tanto que assim, Rio Grande hoje em dia a gente faz uma vez no mês e tipo, as festas lá, dá umas 700 pessoas, na Signos a gente bota 1000 pessoas... coisa que aqui em Bagé, só a Engloukos bota... por quê? Porque a Engloukos é uma festa comercial, não é uma festa alternativa... então, tipo, tu vê a diferença aí... o público alternativo fora da cidade, o LGBT... alternativo que eu digo o LGBT, a gente trabalha com o público LGBT mas também considero que tem outras pessoas, que são mais alternativas, não que sejam parte do público LGBT, mas que frequentam... ã.. com certeza se vende muito mais fácil fora de Bagé, tipo, em Bagé, tanto que hoje em dia para manter as despesas que a gente tem, a gente teve que se adaptar um pouco ao público de Bagé... Tem festas aí que tipo, é Trap, é Funk, que é o que a gente... por exemplo, em um mês a gente tem 4 finais de semana, a gente precisa abrir a casa, no mínimo, 5, pra se pagar as despesas... só que com festa alternativa, se a gente abrisse, só com o público LGBT, não se pagaria as despesas, entendeu? então, tipo, administrativamente a gente teve que se adaptar pra também receber o público "hétero" pra ajudar a pagar as despesas.


Pâmela: E pra vocês como é que foi essa relação, vocês sempre pensaram para o público LGBT?


Nágila: Na verdade, não, porque a gente fez os cálculos e viu que não ia se pagar.. que a gente ia ter que abraçar mais galera, um jeito que abrangesse mais... então tipo, a nossa ideia sempre foi pregar o respeito, fazer com que respeitassem os nossos ideais, mas ao mesmo tempo tentar englobar mais gente e tipo, gente que seja legal de se conviver... Então, na época, a gente levantou a bandeira de ser uma casa alternativa com cunho universitário... Então, tipo, com a galera da Unipampa, que foi essencial pro nosso crescimento, que era o público universitário, a gente conseguiu ir crescendo e... tipo, porque a gente iniciou o negócio e ainda não tinha muito dinheiro, então a gente conseguiu fazer uma captação assim, pra investir no dinheiro, com o público universitário.


Pâmela: Agora, voltando pra parte mais pessoal, como é que foi pra ti te perceber parte da comunidade LGBT? Como foi o teu processo de autoaceitação?


Nágila: Bom, eu já sabia... Tipo, eu nunca liguei... um pouco sim, eu me importava com a minha família, mas eu nunca liguei pro que vão pensar, tipo... sei lá, acho que não muda nada.


Pâmela: E como é que tu percebe/percebia algum tipo de preconceito em relação ao teu profissionalismo, no caso, tu sempre atuou na Blackout ou já atuou em outras festas?


Nágila: Foi difícil, difícil conquistar espaço fora... Eu até me arrisco a dizer que a Blackout... Tipo, começou por eu não espaço, digamos... Na época não estavam abrindo espaço e aí foi que surgiu a ideia de fazer, pra eu ter oportunidade de mostrar meu trabalho, e a Nati, claro, abraçou a ideia e fez junto e assim foi... Mas a ideia surgiu porque eu queria tocar na época e não abriam espaço... Até, tipo, talvez, um pouco, por eu ser mulher... não sei... talvez um pouco por eu ser mulher, e um pouco por eu ficar com meninas... Mas tipo, hoje em dia mudou, mas mudou porque? Por que eu tive que mostrar muita coisa, porque realmente existe preconceito.


Pâmela: E alguma coisa mudou depois de tu te assumir em relação a amigos, a família?

 

Nágila: Acho que não... amigos não... eu não lembro de ninguém que ficou sabendo que eu ficava com mulher e mudou comigo... Só a função da minha mãe mesmo mas em seguida passou.


Pâmela: E tu tinha contato com pessoas mais velhas? Da comunidade LGBT


Nágila: Eu jogava né, e aí eu jogava em campeonato Citadino, que englobava tudo que era idade... Acho que era meu único contato, sempre convivi mais com a galera da minha idade.


Pâmela: E tu já tinha amigos LGBT antes de te assumir?


Nágila: Sim, colegas...


Rosiméri: Como que foi sua relação na escola?


Nágila: Na época eu namorei uma melhor amiga minha, aí rolou um preconceito da galera do ensino médio... Foi um auê, porque tipo, a gente andava grudada e sempre foi amizade, só que aí a gente jogava handebol juntas, e quando eu me assumi (eu juro que não dei em cima de ninguém gente (risos)), mas eu meio que encorajei pessoas a, acho, que a se assumir e ela foi uma delas e aí rolou da gente ficar e aí rolou um preconceito.


Rosiméri: Você pode me dizer em qual escola que você estudou?


Nágila: No Carlos Kluwe.


Pâmela: E aqui em Bagé tu percebe espaços que são abertos ao público LGBT? Que o pessoal costuma frequentar mais...


Nágila: Acho que aqui (Blackout) e o Tupynambá, talvez, não sei... Acho que, to falando mais da galera que eu conheço que frequenta né.


Pâmela: Tu costumava frequentar antes, algumas outras festas ou espaços?


Nágila: Sim, na época tinha bastante... O que que acontece... Quando a gente regularizou a Blackout, foi em seguida do acidente da KISS, então a fiscalização começou a cair muito em cima, e aí a única festa que tava regularizada era a nossa... Mas antes tinha, umas duas ou três festas... Até, foi onde eu comecei a tocar, que abriu espaço pra eu apresentar meu trabalho, que foram produtoras intinerantes que, tipo, não tinham local fixo sabe? foi como a gente começou também... alugava algum salão, em algum lugar e fazia rolê LGBT... e aí acho que tinha umas três na época, e aí eu ia nos rolês em seguida que eu me descobri.


Pâmela: E além de festas tu frequentava algum outro espaço? Por exemplo praças, bar, alguma coisa assim?


Nágila: Praça na minha época era a Praça Esporte, que a galera LGBT se reunia.


Pâmela: E tu pode falar um pouco mais do que vocês faziam lá?


Nágila: A gente se juntava no domingo... na verdade, todos os dias a tardinha a galera se juntava pra tomar mate.


Pâmela: Teve alguma pessoa/ personalidade que te encorajou a se assumir? Ou que foi importante pra construção da tua personalidade? 


Nágila: Tu diz do meio LGBT?


Pâmela: Isso!!


Nágila: Acho que não... Acho que assim, é um processo meio que natural... Quando tu te assume, tu começa a frequentar locais que as pessoas te aceitem e tipo, consequentemente, eu fui criando mais amigos LGBT e hoje em dia é a maioria... Claro, ainda tenho amigos hétero, que não mudaram comigo, que foi tranquilo, mas eu nem me lembro quando que teve essa mudança sabe, de "aí eu tenho mais amigos LGBT e menos amigos hétero", acho que na verdade todos os meus amigos se assumiram gays (risos).


Pâmela: (risos) E como é que tu fazia pra explorar a tua sexualidade aqui em Bagé? Como que tu te aproximava de pessoas que tu tinha interesse?


Nágila: Não tinha WhatsApp na época e nem Tinder (risos) eu não sei, mas acho que era mais nesses rolês mesmo, tipo, que eu ia sair pra festa ou pra ir na praça amigas e amigos.


Pâmela: E tu percebe algum tipo de preconceito dentro da comunidade LGBT?


Nágila: Tu diz de LGBT pra LGBT?


Pâmela: Isso!


Nágila: Acho que não... eu consigo perceber as vezes de LGBT com Hétero... é até difícil manter um equilíbrio assim de fazer a galera se respeitar porque tem uma galera LGBT que é extremista sabe, é anti-hétero. Só que ao mesmo tempo, se a gente quer igualdade, a gente tem que tentar abrir a cabeça e respeitar e não tipo "sai daqui!".


Rosiméri: Você percebe a comunidade LGBT unida aqui em Bagé?


Nágila: Não... Acho que não... Mas talvez seja porque hoje em dia eu não tenho muito tempo de parar e frequentar... tanto que eu queria ir na Parada da Diversidade e não consegui... mas de repente, se tivesse, até me coloco a disposição se tiverem ideias, se conhece alguém que queira abraçar o projeto, de a gente pegar uma data no mês, de repente, pra fazer uma festa pra comunidade LGBT, voltada para comunidade, com um tema bem especificado, com cartaz lá na frente, se não quer entrar, não entra... porque eu acho que não tem um encontro onde haja essa troca, e até de repente uma roda de conversa entendeu? Eu até ofereci pra gurizada que organizou a Parada da Diversidade, deles virem instruir nossos seguranças também com a galera Trans, porque, eu ainda não entendo muito bem, então falta um pouco de diálogo e aí eu não sei se talvez eu não paro muito pra procurar informação, porque tá muito corrido né, pra gente, e como tem produção fora as vezes eu passo uma semana fora da cidade e tal... bom, pra gente se encontrar foi horrível né... mas tipo, talvez eu não to sabendo ou então realmente não ta acontecendo recorrente, tipo uma roda de conversa, um encontro, ou festa que seja, até uma confraternização, tipo, da galera que quer fazer projeto pra isso sabe.


Pâmela: Como é que tu percebe essa visibilidade, já que tu morou em Rio Grande, e aqui, como é que tu percebeu essa visibilidade? Não apenas em festas, mas no dia a dia?


Nágila: Lá em Rio Grande, quando eu tava morando lá no ano passado, no forte do verão desceu um trio elétrico, dois ou três na verdade, era a parada. Um "furdunço" sabe, fazendo uma festa, fazendo a galera ver como é o movimento LGBT, e aqui em Bagé eu ainda não vi... Não sei se eu realmente to fora e não to sabendo ou não tá sendo bem trabalhado.


Pâmela: E tu, performa a feminilidade, como que tu percebe o preconceito quanto a isso? Tanto na tua profissão, quanto fora...


Nágila: Eu acho que rola um preconceito, ou então, te botam de capa de flyer, pra ti vender a festa com teu corpo, e é foda isso... só que eu acho que tá melhorando, ainda tem muito, só que existe muito machismo né.


Pâmela: E como é que tu percebe que o Brasil tem mudado em relação a comunidade LGBT? Acha que tem se criado novas leis e tem se realizado mesmo essas leis?


Nágila: Ah, eu acho que, é muito complicado, ainda mais agora... Se antes era um passinho de formiguinha, agora vai ser menos ainda, vai ser tudo mais lento, mas eu acho que tá indo, que tá melhorando, só que tem que seguir lutando né.


Pâmela: E aqui em Bagé como é que tu percebe isso?


Nágila: Acho que deve se fazer mais. Acho que inclusive a gente é aberto pra projetos... falta tempo pra fazer as coisas sabe, mas se tiver galera que apoia e ideia pra fazer tipo "ó gurias, preciso disso e vocês podem ajudar com isso" a gente é parceira entendeu? Só que a gente, infelizmente, não tem tanto tempo pra se dedicar pra esses projetos.


Rosiméri: Você falou um pouco sobre os seguranças em relação a pessoas trans. Antes de vocês selecionarem os seguranças, essas conversas acontecem?


Nágila: Sim, a gente já teve várias conversas de coisas essenciais. Tipo, de que a pessoa trans pode entrar no outro banheiro, que se identificou com o gênero e tal, só que claro a gente sempre pede, pra tia Márcia, que é a chefe de segurança mulher e ela que faz essas contratações e tudo mais. E a gente, hoje mesmo eu tava em reunião mais cedo que era pra isso, a gente sempre tá ajustando uma coisa e outra sabe... E uma coisa que a gente pede é, tenta identificar o nosso público e o público deles, porque a gente tem parceria com produtoras de fora que as vezes tem outro público e tipo, nosso público por ser mais delicado, ser LGBT e ser de algumas causas, a gente sempre tenta conversar com ela... E eu estava justamente conversando isso, tipo, que os seguranças, por conhecer nosso público e saber que a galera não é de má índole, que os seguranças não ajam com agressividade, que chegue e converse primeiro, porque tem diferença em uma festa e outra e graças a Deus a Blackout tem um público mais tranquilo... Então, tu falou em uma coisa e eu fui pra outra (risos), mas sim, a gente tem essas conversas com os seguranças e a gente tenta passar o que a gente tem de conhecimento né... claro que a gente tá sempre aprendendo... eu errei, inclusive, na Parada da Diversidade em como me dirigir ao Murilo, então, ninguém tá livre.


Rosiméri: Você falou um pouco da Parada também, essa foi a 4°, tu chegou a participar das outras 3?


Nágila: Não, não... Foi na mesma época?


Pâmela: Acho que todas foram por dezembro..


Nágila: Ano retrasado eu fui convidada, só que era quando eu tava tirando férias, aí eu tava viajando. Ano passado eu tava morando em Rio Grande, então eu não tava aqui... Esse ano eu tava aqui, eu só não tava no dia que foi ali na Praça Esporte, mas eu tava no grupo, conversando tudo e a gente tava mantendo comunicação.


Pâmela: E em Rio Grande tu chegou a participar em algum movimento assim?


Nágila: Sim, na Parada


Pâmela: E como tu percebeu a diversidade de lá e aqui?


Nágila: É que eu não fui aqui né, então não sei como é que tava, até não vi o material que foi postado e tal, mas por essa questão de lá ter mais população, eu acho que também tem outro fator, que é que Bagé tem a Unipampa a pouco tempo né, é uma das universidades mais recentes, então acho que lá, como já tem a FURG a muito tempo, Santa Maria também já tem a UFSM, eu acho que a galera que vem de fora traz muita cultura pra cidade sabe? e diversidade também, e Bagé, por ser uma faculdade mais nova, ainda tem muito a crescer sabe... porque a galera de fora traz uma diversidade, querendo ou não, mas demoram um tempo pra se estabelecer na cidade. Eu acho que Bagé é uma cidade de muita cabeça fechada, gente mais velha e meio "bagual" a coisa e aí eu acho que a galera que vem de fora vem crescendo um monte, em questão de cultura. E por lá já ter a anos, eu acho que é por isso que já cresceu bastante sabe? Tipo, os movimentos... qualquer movimento, feminista, negro, LGBT... é notório a diferença.


Pâmela: E tu ta fazendo faculdade na Unipampa né? 


Nágila: Isso, música.


Pâmela: Como é que tu percebe a comunidade LGBT no teu curso lá na Unipampa?


Nágila: Eu sou a primeira DJ e a primeira mulher DJ do curso e primeira lésbica (risos), só que eu acho que tem bastante galera, eu acho que não rola tanto preconceito, não sei se é porque é galera mais de humanas, mas acho que rola um pouco mais de compreensão.


Rosiméri: Como que você percebe o preconceito na cidade? Físico, psicológico...


Nágila: O preconceito da galera, da população Bageense? Com relação a comunidade LGBT?


Rosiméri: E em relação a ti também.


Nágila: Acho que hoje em dia não tem mais, mas eu, é como eu falei pra vocês, têm preconceito, mas eu acredito que eu consegui um respeito que hoje em dia não tem, mas ao mesmo tempo tem com o meio LGBT... Não tem comigo hoje em dia porque talvez, talvez até por interesse... Eu acho que rola as vezes um pouco disso sabe, talvez hoje em dia eu não perceba mais porque eu sou proprietária de uma casa noturna e tal, mas eu sei que existe.


Pâmela: E tu te sente representada no meio LGBT por ser Lésbica? Tu acha que existe bastante representatividade?


Nágila: Tipo?


Pâmela: Tu acha que é bem visível na comunidade LGBT?


Nágila: Eu não entendi a pergunta...


Pâmela: No caso, tu vê uma visibilidade das lésbicas na comunidade LGBT?


Nágila: Acho que sim... Acho que a minoria ainda é a comunidade trans... Acho que gays e lésbicas é parelho.


Pâmela: Tu quer falar mais alguma coisa? Tu tem mais alguma memória da cidade?


Rosiméri: Quer deixar alguma mensagem pra quem tiver acesso a essa entrevista?


Nágila: Só queria dizer que sintam-se a vontade pra trazer projetos pra nós, que a gente vai ser super receptivos e acho que é isso (risos)


Pâmela: Tá bem, muito obrigada!


Nágila: De nada!