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  • Christian Flores

A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE NO ACERVO BAGEENSE

Updated: Feb 25, 2020

Christian Flores

Bacharel em História e Ciência Política e Espanhol/Illinois College

chris3fl@gmail.com


Wagner Ferreira Previtali

Bacharel em Cinema e Audiovisual/UFPel

wagnerfprevitali@gmail.com


Igor Neto Paz

Graduando em licenciatura em música/Unipampa

ighpaz@gmail.com


Rosiméri de Avila Goulart

Graduanda em Letras Línguas Adicionais/Unipampa

merygoulart13@gmail.com


Introdução

A história oficial costuma excluir narrativas de sujeitos LGBTs. E quando essas narrativas começam ser exploradas, é geralmente nos grandes centros metropolitanos, a exemplo das ONG LGBTs e dos grandes movimentos sociais. Por enquanto, a memória LGBT no interior do país vem sendo ignorada e, como consequência, apagada. Isso é especialmente certo na história de Bagé, uma cidade de médio porte, na região do Pampa do Rio Grande do Sul, próximo à fronteira com Uruguai. Se destaca na cidade sua associação com a representação de uma visão de gaúcho "macho", tradicionalista, ideia que foi popularizada nacionalmente pelo livro “O Analista de Bagé” de Luís Fernando Veríssimo.


Assim, Bagé é tida como uma cidade conservadora, machista, e opressora para pessoas LGBTs. Porém, ao mesmo tempo, se revela na história da cidade as memórias de sujeitos LGBTs. Da presença de um vereador homossexual, uma mulher abertamente lésbica comandando a reitoria da URCAMP, a principal universidade privada da cidade, e histórias de travestis que construíram sua vida na cidade. Além disso, se destaca na cidade avanços sobre direitos de pessoas LGBTs nacionalmente. Por exemplo, a cidade foi a primeira em aprovar a adoção de uma criança por um casal de mulheres lésbicas em 2005. Esse caso foi até o Supremo Tribunal da Justiça e conseguiu o direito da adoção para todos os casais homoafetivos de Brasil em 2010. Essa visibilidade e os direitos outorgados pela justiça contradiz a visão tradicionalista e conservadora da cidade. Mas ainda assim, a história oficial de Bagé não reflete a realidade de seus diversos sujeitos.


Pelas contradições que existem em Bagé e pela falta de dados sobre sujeitos LGBTs na cidade decidimos criar o projeto “Memória LGBT - Bagé,” realizado na Universidade Federal do Pampa em Bagé, por integrantes dos programas Idiomas Sem Fronteiras e CAPES/Fulbright. O projeto tem como objetivo preservar e realçar a história LGBT do interior gaúcho e o trabalho aqui apresentado, além de trazer nossa metodologia e conceitos de teóricas e teóricos que utilizamos, tem em vista trazer esses primeiros resultados das nossas pesquisas. Trabalhamos com a ideia de trazer a história LGBT dos grandes centros urbanos, onde tipicamente é visto como o foco, para o interior. Talvez assim, podemos desenvolver a narrativa do progresso LGBT para além das grandes metrópoles. Além disso, podemos começar a “estranhar” (LOURO, 2018) a história local, e preservar aquilo apagado pelo que o autor Michel Foucault chama da “hipótese repressiva” (FOUCAULT, 1988).


Nosso foco então é entender as vivências LGBTs na cidade de Bagé, levando em consideração o que encontramos através do acervo municipal, principalmente confrontando um passado e norma branco, cis hétero e masculino. Para entender as diversas contradições, é importante entender o contexto LGBT da cidade, e para isso usamos o método da pesquisa arquival. Nossa pesquisa evidencia que existem muitas contradições na narrativa do conservadorismo gaúcho em Bagé, que se manifesta na visibilidade de pessoas LGBTs em sua história. Bagé tem tido uma luta consistente pelos direitos desta população, apesar do tradicionalismo presente neste município. Esse passado precisa ser preservado.


Metodologia

Nossa metodologia parte do uso de documentos primários, principalmente aqueles encontrados no Arquivo Municipal de Bagé. Ao investigar informações nesses jornais e revistas encontramos reportagens que evidenciam parte das vivências de pessoas LGBTs neste município durante diferentes épocas. Os materiais foram fornecidos pelos acervos do Arquivo Municipal, como os jornais Correio do Sul, Folha do Sul e Minuano, e a revista Alphorria da URCAMP. O museu Dom Diogo de Souza, principal museu na cidade, é outro local com acesso a arquivos e informações sobre a história local. Foi lá onde encontramos uma nota que comentava sobre em 1939 ter acontecido uma cirurgia de "troca de sexo". O objetivo da busca nos acervos era redescobrir aquelas publicações que mencionam pessoas LGBT nos séculos XX e XXI. Através de suas análises interpretamos o contexto e a percepção da cidade, heteronormativa, sobre esses sujeitos “estranhos.” Analisamos como os principais meios de comunicação daquela época — aqueles porta-vozes do padrão— traziam essas notícias sobre sujeitos LGBTs.


Imagem 1 & 2: Integrantes do projeto “Memória LGBT - Bagé” Wagner Previtali (esquerda) e Gilberto Stanchack (direita) fazendo pesquisas no Arquivo Municipal de Bagé. Fonte: Acervo pessoal.


A partir das reportagens encontradas em jornais e revistas começamos a pensar nas histórias desses indivíduos e vimos que Bagé, uma cidade de médio porte, do interior gaúcho, próxima a fronteira do Uruguai, além de apresentar sujeitos LGBTs, inclusive, possui certos avanços sobre seus direitos. Sendo uma pesquisa histórica de temática LGBT temos que primeiro confrontar o passado, costumeiramente cis hétero, branco, masculino, mas também, nesse caso, agimos demonstrando que os avanços de pautas LGBTs acontecem também no interior. Uma questão cara a nosso trabalho é trazer a teoria queer pro contexto, no sul do Brasil. Nesse sentido, conversamos principalmente com as ideias da autora Guacira Lopes Louro (2018), teórica da área de educação que traduz a ideia de “queering” para “estranhamento”.


Queering, entendido como "tornar algo queer" envolve trazer esses sujeitos ditos "queer", estranhos, para dentro das narrativas, da educação, da história. A presença queer vem principalmente do movimento LGBT mas envolvem também outros corpos excluídos pelo poder. As pesquisas com foco na teoria queer atravessam constantes problematizações. Por se desenvolver ao questionar a cultura, esta que muitas vezes exclui e agride os sujeitos “queers” (pessoas LGBTs, mas não somente) contrapondo-os aos sujeitos “straights” (héteros, corpos dentro da norma). É preciso lembrar que a normatividade que exclui corpos de sujeitos LGBTs também afeta e exclui com diferentes intensidades corpos soropositivos, negros, indígenas, pobres. Louro (2018) ao trazer a teoria para a região no sul global associa o ato de queering a palavra "estranhamento", pensando na expressão comum gaúcha “tá me estranhando?”, que geralmente representa um confronto. É justamente por esse caminho que ela acredita ser necessário agir ao trazer a teoria queer para diferentes áreas de saberes. Devemos pôr em conflito aquilo que nos é apresentado; estranhar as coisas que são nos dada como normais. Estranhar que a história seja isso que nos é apresentado, em grande parte branca, masculina, cisgênera e heterossexual e confrontar o paradigma que as cidades de interior não sejam lugares para pessoas LGBTs.


Também trazemos a nosso embasamento teórico as ideias do autor norte americano, Colin Johnson, que desafía historiadores nos Estados Unidos à mudar o olhar da história LGBT das grandes metrópoles para a ruralidade. Segundo Johnson, é necessário um “Rural Turn” para poder desenterrar as histórias “estranhas” do interior rural do país e poder explorar as diversidades sexuais e experiências de sujeitos LGBT que sempre existiram aí (JOHNSON, 2013). Johnson usa a história para desafiar a narrativa do “mandato implícito” para pessoas LGBT mudar para grandes cidades metropolitanas. Segundo ele, a ideia que é obrigatório fugir das zonas rurais apaga as vivências e a cultura LGBT que existem aí e permite a heteronormatização incontestado da ruralidade. Adaptando essas ideias pro Brasil, nós realçamos o grande contraste que existe entre cidades metropolitanas e litorais e as cidades rurais do interior. Bagé é uma cidade semi-urbana de médio porte cuja economia é principalmente baseada em agricultura. Essa cultura agrícola de campanha costuma apagar as narrativas LGBT e ignorar a existência de seus sujeitos. Com este trabalho, queremos desafiar mais historiadores e sociólogos pesquisar e preservar as vivências “estranhas” no interior brasileiro.


Investigação

Nossa pesquisa nos permitiu achar conquistas tanto como desafios na história LGBT de Bagé. Destacamos descobertas no acervo que demonstram que a cidade conquistou avanços inéditos em relação aos direitos LGBTs, como a segunda cirurgia de ¨troca de sexo¨ feita em todo Brasil no ano de 1939; o direito de um casal de mulheres de adotar uma criança e registrá-la com o nome dos dois/duas pais/mães, em 2005; e a mudança de nome social para pessoas trans sem necessitar de cirurgia de redesignação sexual, em 2013. Além disso, achamos uma série de personagens que conseguiram alta fama local. Ao mesmo tempo, o assassinato de uma mulher travesti, a falta de mobilização política, e a demora por ter uma parada LGBT na cidade mostram uma resistência ao reconhecimento de pessoas LGBT e uma falta de unidade na comunidade existente.


Nas seguintes seções realçamos três temas que descobrimos com nossa pesquisa preliminar no acervo. Primeiro, exploramos os “corpos estranhos” que foram descobertos nos jornais da cidade. Depois, exploramos o ano 2013 que se destacou por ter alta frequência de eventos e sujeitos LGBT nos jornais deste ano. Finalmente, exploramos o longo e difícil caminho a ter uma parada LGBT na cidade. Esses segmentos não são uma história LGBT definitiva da cidade, mas são uma mostra dos diversos acervos LGBTs que tem nos arquivos da municipalidade. Destacamos esses três temas quais merecem ser elaborados com pesquisas mais a fundo.


Sujeitos estranhos

Os corpos LGBTs se acham nos meios de comunicação sempre como corpos estranhos, fora do padrão, e por isso muitas vezes se convertem notícia. A pesquisa do qual esse trabalho faz parte tem por objetivo registrar a história oral a partir de pessoas LGBTs em Bagé. Antes dos encontros para as entrevistas fomos atrás do que haveria documentado sobre a vida e presença de pessoas LGBT nos jornais.


No museu Dom Diogo de Sousa, que apresenta exposições sobre a história da região, encontramos, em um setor sobre a medicina na cidade, um recorte de notícia. Comentava, em poucas palavras, que em 1939 havia acontecido a primeira cirurgia de troca de sexo no estado, tendo sido a segunda do país. Falava de Henrique, até então conhecido como Almerinda.


Pesquisando nos cadernos do jornal Correio do Sul no Arquivo Municipal conseguimos encontrar os documentos primários sobre a cirurgia e o que teria acontecido. A primeira reportagem, saída no dia 16 de março de 1939, informava sobre a cirurgia inédita que aconteceria na cidade, mas foi nas edições dos próximos dias que a reportagem se desenvolveu. Essa cirurgia que aconteceu em 1939 foi divulgada como a segunda do país, primeira no estado.


Henrique se apresenta um sujeito "queer", estranho. O recorte no museu fala que seus pais estranharam o fato dele, até então Almerinda, urinar de pé. A reportagem publicada no dia 17 de março de 1939 informa mais de Henrique. Ele, que atuava como empregada doméstica aos 14 anos, foi questionado por seus patrões, que teriam achado que Almerinda "mantinha atitudes estranhas para o seu sexo". Os discursos que acompanham os três dias de reportagem envolvendo Henrique percorrem construções do que deveria ser um homem ou mulher. Henrique é apresentado no primeiro dia das reportagens como "mocinha bageense que passará a pertencer ao sexo barbado", já no dia 18, em algumas últimas notas sobre esse caso e sua repercussão, mostra que Henrique recebeu presentes da cidade e até propostas de emprego, tendo sido muito visitado no seu período pós-cirurgia.


Imagem 3: Manchete sobre a cirurgia de 1939. Fonte: Acervo Municipal de Bagé, fotografado pelos autores


Mesmo que uma coluna publicada no jornal por um médico da cidade chamasse toda a notícia de tapeação, se tratando de exageros ou enganos médicos, a história de Henrique traz interesse por pensar essa possibilidade de assumir o que na época seria um outro sexo. Repórteres que foram conversar com Henrique disseram terem sido recebidos com "grande alegria pelo ex-mulher", ele revela que ficou muito contente quando soube que o médico poderia lhe "transformar em homem". Ele, que até então era empregada doméstica, conclui dizendo que agora que será "homem de fato" poderá ser mecânico, que era a profissão de seu agrado.


Outro documento importante para nossa pesquisa foi a revista Alphorria, da URCAMP, encontrada no acervo municipal. Essa segunda edição da revista tinha em sua capa a seguinte frase “É preciso ser muito macho para ser gay em Bagé”, e apresentava algumas entrevistas e reportagens sobre pessoas na cidade que são LGBTs.


Imagem 4: Capa da revista Alphorria, Ano 1 - Nº 2. Fonte: Acervo Municipal de Bagé, fotografado pelos autores


Uma das pessoas que mais chama atenção na reportagem é Dalila, frequentador da alta sociedade nos anos ‘90 e ‘00. Em sua reportagem o texto apresenta que Dalila “considerando-se moldado às normas, afirma nunca ter sentido o peso do preconceito”, algo que é posto no próprio texto em cheque mais adiante ao trazer o relato de Dalila sobre seus amigos terem se afastado quando começou a emagrecer muito em decorrência de problemas na saúde. Seus amigos se afastaram com medo de ser um corpo soropositivo, no que Dalila comenta “[...] não queriam me beijar nem apertar a minha mão e o mais interessante é que eu não sabia o porque”.


Também aparece na revista o nome de Paulinho Vesgo, que nos anos 2000 ao concorrer uma vaga para vereador e que, apesar de ter propostas visando a população LGBT, consegue votos suficiente para ser eleito. Visto como estranho na sociedade, assumidamente homossexual, chegou a ser marcado como uma “pessoa feia” em um site e divulgado pelos jornais no mesmo ano que viria a ser eleito. Sua eleição dividiu opiniões entre pessoas que acreditavam ter sido sua escolha uma brincadeira e outros acreditarem ser uma espécie de pedido de desculpas por parte da população bageense que o maltratava.


Outra pessoa interessante para procurarmos construir esse passado LGBT em Bagé seria Yeda Brown, mulher trans que ainda não tem sua história lembrada na cidade. Os documentos que encontramos trazendo sobre sua vida foram localizados em seu blog pessoal, onde traz notícias do jornal do estado Zero Hora a apresentando como "a vedete que prestou serviço militar", nascida em Bagé, ressalta ainda sua carreira realizando performances e uma breve amizade com Salvador Dali.


A pesquisa preliminar mostrou uma cidade que tem tido “corpos estranhos” espalhados por toda sua história. Seguimos ainda a busca por essas histórias de vida no passado que atravessam pessoas LGBTs e sua relação com a cidade de Bagé. Mas um simples olhar no acervo é uma rica mostra de pessoas que existiram e continuam existindo, nítidos na sociedade Bageense.


O Ano 2013 e consequências

O ano de 2013 se destacou em nossa pesquisa pelo alto índice de notícias e eventos publicados sobre sujeitos LGBT. No ano de 2013 iniciou-se - conforme os registros encontrados nos jornais locais - algumas ações em relação a comunidade LGBT em Bagé. No dia 7 de Maio a Lei Municipal 5239 de autoria da Secretária Municipal da Educação Janise Collare foi sancionada e a lei determina aos órgãos da Administração Pública Municipal, Câmara de Vereadores e iniciativas privadas o reconhecimento e adoção do nome social de travestis e transsexuais. Foi destituído no dia 28 de Junho como o dia municipal do combate a homofobia pelo projeto da câmara aprovado da vereadora Márcia Torres. Esse fato foi uma enorme conquista já que o projeto tinha sido proposto faz anos.

Ocorreu também em 2013, na segunda semana de julho, o assassinato de Lacraia (Rodrigo Pires Franco), conhecida pela cidade por alegrar nos carnavais de ruas e trabalhar às noites. O assassinato dela foi declarado um ato de homofobia pela OAB. O fato ocorrido mobilizou parentes, amigos e sensibilizados com a causa ao saírem para as ruas com gritos de ordem e pedidos por justiça. Segundo os dados encontrados no jornal local Folha do Sul, o acusado era conhecido da vítima e foi condenado, somente em Agosto de 2015 completando dois anos depois do crime, pegando pena de 14 anos em regime fechado. Depois do triste acontecimento, a câmara junto com a OAB da cidade, iniciaram alguns eventos como formação para responsáveis de escolas públicas e privadas, conversas abertas para a comunidade, criação do grupo da diversidade da OAB e alguns outros para conscientizar, combater e informar sobre questões de ‘homofobia’. A cidade de Bagé se mantêm com os eventos até o ano de 2014 depois podemos perceber que as demandas para tratar sobre assuntos a comunidade LGBT foram significativamente diminuindo, chegando a um ou dois eventos por ano, contando com o atual 2019.


Bagé é uma cidade considerada pequena conservadora e tradicionalista por muitos, mas mantêm, como contradição, passos iniciais que visibilizam a comunidade LGBT na cidade abrindo a possibilidade de se expandir para o resto do país, como os casos de primeira adoção por casais do mesmo sexo, direito do uso do nome social, sem precisar de cirurgia, em instituições públicas e privadas. Isso ajuda a reforçar que cidades pequenas, do interior e mesmo com seus tradicionalismos contribuem para avanços sociais para a comunidade LGBT assim como em grandes metrópoles.


Ao mesmo tempo, uma falta de organização e instituições formais deixa um grande povo LGBT sem meios de se organizar e mobilizar facilmente. A morte de Lacraia levou a diversas ações no tempo diretamente depois do acontecimento, mas após cerca de um ano, toda movimentação se apagou. O ano de 2013 mostra também as dificuldades que tem o povo LGBT em sustentar movimentos sociais.


O longo caminho a uma Parada LGBT

Essa mesma falta de organização foi o que levou à Bagé demorar em criar uma parada LGBT. Investigando jornais locais e documentos primários garimpamos uma história que a sociedade normativa local tenta apagar, fatos de extrema importância para a comunidade LGBT que se dá no início dos anos 2000 onde temos frentes políticas dentro da câmara de vereadores do município de Bagé tentando trazer o debate de sexualidade, sem muito sucesso. Com índice reprovações alto para a época, o projeto intitulado “Dia do Orgulho Gay” era por sua vez engavetado. O vereador Paulinho Vesgo tentou trazer a proposta no ano 2000, mas foi recebido e rejeitado como piada.


Caminhamos para os anos de 2010 onde novamente temos a tentativa de um “Dia do orgulho gay” onde outros seres políticos e de outras vivências tentam fazer com que esse projeto decole, mais uma vez sem sucesso por conta de oposições o projeto é vetado definitivamente. Em meados de 2016 é criada uma frente com a comunidade local para tirar do papel a 1ª parada LGBT, dada sem nenhum apoio governamental e de forma totalmente autônoma, a comunidade de Bagé levava para rua sua primeira parada LGBT onde reuniu mais de 1000 pessoas em praça pública, levando debates sobre corpos LGBTS, sua saúde mental e representantes locais para falar do mercado de trabalho para essas pessoas.

Após o grande número alcançado na primeira parada Bagé sedia a 2º parada LGBT trazendo novas perspectivas de luta como interseccionalidade (gênero, raça e classe) e a importância de estar presente na sociedade, assim como debatendo também tópicos de “reorientação sexual”, algo que no ano de 2017 foi um assunto predominante na comunidade local. Dada no dia 16 de dezembro de 2018, a terceira parada LGBT toma forma com a frente ainda autônoma mas com um grupo de diversidade adiante para torná-la visível, sendo a parada com menor número de pessoas trouxe marchas em protesto à morte de Marielle Franco, o ser LGBT no meio universitário, e gênero e sexualidade, ano de forte envolvimento político e social envolvendo a comunidade LGBT local.


Demorou quase 16 anos para acontecer uma parada LGBT em Bagé. Isso é significativo para uma cidade do tamanho e da importância para a região que é Bagé. Todas propostas eram apagadas. Ter uma parada hoje em dia é claro sinal de uma resistência e um esforço por sujeitos LGBTs. A luta por chegar aí é algo que precisa mais investigação.


Imagem 5: Equipe do Projeto Memória LGBT em Bagé durante a 4ª Parada da Diversidade de Bagé em dez/2019. Fonte: Acervo pessoal


Conclusão

A história LGBT merece ser preservada e realçada como parte da história oficial de Bagé. A população LGBT tem estado presente em toda a história bageense, trazendo diversas pessoas de destaque e avanços nacionais. Houve avanços significativos na cidade que tiveram repercussão nacional, Para uma cidade de interior, na região de campanha, marcada pelo tradicionalismo gaúcho, isso é muito significativo. porém ao mesmo tempo não estamos vendo essa narrativa presente na história oficial da cidade. A falta de organização tem levado uma alta população de pessoas LGBTs ter pouca mobilização e representação na cidade. A história tem o potencial de unir e mobilizar este grupo. Além disso, um conhecimento mais amplo da história LGBT da cidade pode ajudar pessoas que não se sentem representadas o vistas na cidade. É importante estranhar aquilo que nos é dado como verdadeiro para melhor conhecer sobre as histórias das cidades e de seus habitantes. Olhando para o interior do Brasil, a disciplina da história e de estudos de gênero tem muitas histórias que ainda não conhecemos e que merecem ser exploradas. Com esse projeto, convidamos mais historiadores começar explorar essas histórias que são tão importantes para povos LGBT no interior formar uma identidade e construir organização. Segue-se o trabalho e pesquisa para construir essa presença e histórias múltiplas sobre a cidade, estando principalmente aberta à diversidade que constrói a cidade.


Referências

BOYD, Nan Alamilla, and N Roque Ramírez Horacio. Bodies of Evidence: the Practice of Queer Oral History. Oxford: Oxford University Press, 2012.


COSTA, Benhur Pinós Pinós Da. “Pequenas Cidades e Diversidades Culturais No Interior Do Estado Do Rio Grande Do Sul: o Caso Das Microterritorializações Homoeróticas De Santa Maria, Bagé, Alegrete, Uruguaiana e Itaqui.” Revista Latino-Americana De Geografia e Genero 3, no. 2 (2012): 125–37. https://doi.org/10.5212/rlagg.v.3.i2.125137.


FOUCAULT, Michel. História da sexualidade, vol. 1: a vontade de saber. Rio de janeiro: Graal, 1988.


HOOPES, James. Oral History: an Introduction for Students. The University of North Carolina Press, 1972.


JOHNSON, Colin R. Just Queer Folks: Gender and Sexuality in Rural America. Philadelphia, PA: Temple University Press, 2013.


LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Autêntica, 2018.

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