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RENATO BAUERMANN

23 Outubro, 2019

Renato Bauermann é um homem gay de 28 anos, sua entrevista aconteceu no dia 23 de outubro de 2019. Atua como Chefe de Cozinha e também realiza produções de filmes e vídeos pornográficos, produzindo entre o pós-pornô e o pornoterrorismo. A entrevista foi realizada por Wagner Previtali e Igor Paz.

 
 

Wagner: Essa vai ser a minha primeira entrevista do projeto de História LGBT. Estamos fazendo a pesquisa aqui na cidade e a gente tá querendo descobrir o passado e as histórias aqui na cidade, dessas vivências de pessoas que se identificam quanto LGBTs. Eu queria que tu se apresentasse e falasse tua idade.


Renato: Meu nome é Renato Bauermann, eu tenho 28 anos, eu sou pornógrafo de profissão e de hobbie. De formação eu sou gastrônomo, formado em gastronomia, mas me inseri na pornografia há uns 4 anos, mais ou menos já. Comecei primeiro atuando com a pós-pornografia, não entrei direto no porno comercial, atuei, dirigi, produzi, acabei no pornoterrorismo também. Eu documentava todos os meus "cruisings", sexo em público, isso não na cidade, fora da cidade. Eu saí daqui de Bagé com 14 anos, mais ou menos, fui morar na serra com meu pai, meu pai ficou com a minha guarda na época. Eu morei em Bento Gonçalves, estudei por lá, estudei na serra, estudei em Flores da Cunha, do lado de Caxias. Ai to ofegante (risos). Morei em alguns lugares, algumas capitais, e em Porto Alegre foi onde comecei a trabalhar com pornô. Cheguei em Porto Alegre em 2015, 2016 eu acho, de 2015 pra 2016, que eu comecei a residir em Porto Alegre de vez, tava morando em Balneário Camboriú, fui pra Porto Alegre, voltei pro sul. Não sai do sul na verdade ali né, geograficamente.


Wagner: E qual tua relação com a cidade de Bagé? Tu saiu daqui com 14 anos, daí ia e voltava?


Renato: Eu sempre venho, como minha família é daqui, minha mãe é daqui, eu  sempre venho, tipo, no mínimo umas 4 ou 5 vezes por ano eu venho, tenho que vir pra Bagé, sempre venho, e a minha relação com a cidade sempre foi muito boa assim, boa e caótica também, porque eu não me sinto muito à vontade na cidade, mas também não deixo de ter meu lazer na cidade, nunca deixei de ter meu lazer na cidade, sempre fui bem recebido aqui. Atualmente agora tô há um ano, vai fechar um ano agora que voltei de vez pra cidade, não atuo aqui, não gravei nenhum porno aqui, gostaria muito mas ainda não, sabe, tô num hiato, to num bloqueio artístico eu acho, aqui também não me dá vontade de produzir aqui, não é um lugar, eu acho, atraente de produzir aqui, não a pornografia, produzir outras coisas sim, mas pra produzir isso não, não me chama muita atenção, no momento não é o que eu quero fazer aqui.


Wagner: Que atividades tu costuma exercer aqui em Bagé? O que tu costuma fazer pela cidade, que lugares tu vai?


Renato: Ai eu vou pra, assim, sair tem uma boate gay na cidade, que é a Blackout, que é teoricamente gay assim né, GLBT, mas sempre, antes de ter Blackout sempre teve festas aqui, sempre tinha diversão aqui, tinha a Mix Dance, tinha a Paradise que era da Carla, sempre teve boates gays assim, lugares gays, onde se concentrava gays assim, alguns bares também, tinha o Ateliê Coletivo, depois teve o Tupynamba, também lá que concentra bastante, claro não são lugares gays, mas são lugares gay friendly, somos bem recebidos somos tratados bem, não tem tipo, eu pelo menos nunca sofri nenhum tipo de agressão nesses lugares.


Wagner: Nos momentos que tu passava aqui, na tua adolescência, na tua infância, e nesses momentos que tu vinha quando visitava aqui, que lugares nessa época tu costumava ir?


Renato: Eu gostava das festas do Bubu, do Eduardo, que é a Mix Dance, que era sempre tipo de 15 em 15 dias, 20 em 20 dias, sempre ocasionava quando eu tava na cidade tinha uma festinha.


Wagner: Que idade tu tinha mais ou menos?


Renato: Ai de 15, 16, 16 por 17, por aí, já faz um tempo.


Wagner: Quando é que foi a primeira vez que tu foi pra festa?


Renato: A primeira festa gay, a primeira festa que eu fui, foi a NOX em Caxias do Sul, a NOX foi a primeira boate gay de Caxias. Não foi a primeira tinha a Estúdio 54, mas a primeira vez que eu fui numa festa gay era dos atualmente donos da NOX, que eles tinham uma festa itinerante tipo a MIX Dance, que era a festa OM, que é do Paulo Triques e do Edinaldo, lá em Caxias, eles formavam essa cena em Caxias.


Wagner: E tu lembra a primeira vez que tu foi pra essas festas?


Renato: Ai eu lembro sim, ai, a primeira vez que eu fui eu fui de van, assim, porque eu morava em Bento Gonçalves que é uma hora de Caxias, eu fui de van pra ir. Ai eu me senti realizado, foi meu primeiro contato com o mundo gay real, eu tinha um amigo gay e, mesmo assim, Bento Gonçalves não tinha festa, nem festa itinerante que nem aqui tem, então a gente se programou, descobriu que ia rolar uma van pra essa festa em Caxias e a gente foi. E foi maravilhoso, assim, eu lembro de todo meu look, lembro de toda a função foi bem bacana. Tinha muita bicha bonita também, eu fiquei encantado desde então.


Wagner: E quando tu saiu aqui em Bagé pelas primeiras vezes?


Renato: Pelas primeiras vezes foi na Mix Dance.


Wagner: E tu lembra de algumas coisas?


Renato: Ai eu lembro pouca coisa daqui, quando eu vim eu já tava inserido no meio gay, já conhecia outras coisas e tá, era uma festa gay.


Wagner: Nesse momento de crescer, como era teu contexto familiar?


Renato: Então, eu tive uma infância maravilhosa, sempre fui muito afeminado, sempre tive trejeitos desde sempre, sempre fui bem gayzinho, e a minha familia sempre foi muito de boa. Eu lembro que a minha mãe me dava boneca, eu lembro que eu tinha uma barbie, tinha duas barbies, uma normal e uma que tinha um bebê, tinha uma barriga assim, então que a minha mãe me deu, eu nunca tive problema com isso, sabe, com a minha família. Até quando eu me assumi eu me assumi primeiramente pro meu pai, porque na época eu tinha 15 anos e ele tava com a minha guarda. Nunca tive problemas assim sabe, eu sempre soube que eu era diferente, que tinha alguma coisa diferente em mim, mas, principalmente com o que eu queria, com meus desejos sabe, não tanto com meu corpo, porque eu sempre aceitei meu corpo, não me vejo como um estranho fora do ninho, não, mas assim psicologicamente sim, eu já sabia que tinha alguma coisa errada, errada não, mas que tinha alguma coisa diferente em mim.


Wagner: E como foi pra ti esse processo de aceitação, e o que tu viu que mudou pra ti?


Renato: Primeiramente eu me aceitei como bissexual, eu não me assumi como gay, só que isso com 13, 14 anos, eu me enganava, ficava com meninas de beijinho, de coisas assim, eu demorei, não, não demorei por que eu me assumi com 15 anos, mas até eu entender, eu só realmente entendi que eu era gay quando eu tive outro amigo gay. Que daí eu vi assim, não, eu sou gay, eu não sou bissexual, eu gosto de homem e vai ter que ser isso, sabe? É mais fácil eu aceitar isso pra desandar daqui, pra eu seguir em frente, do que eu ficar, sabe, me enganando, nunca gostei de me enganar, eu não gosto de mentir pra mim mesmo, eu vi o que eu tava fazendo, eu tava me forçando, dai eu falei, não, eu vou ter que me assumir, eu sou gay.


Wagner: Tu chegou a estudar aqui em Bagé?


Renato: Estudei no Justino, no 15.


Wagner: E como era o colégio, alguma coisa que tu lembre?


Renato: Ai assim, eu lembro de pouca coisa do colégio, porque eu sempre fui, eu era muito comunicativo, eu gostava de estar inserido, de estar conversando, de estar, sabe, comunicativo mesmo, mas, assim, eu não lembro de sofrer alguma coisa, sabe, porque, as pessoas assim, eu sempre respeitei todo mundo então, que nem racismo, eu nunca senti diretamente, eu sei que tem velado, mas diretamente as pessoas nunca me desrespeitaram, sabe, poucas pessoas me desrespeitaram assim mas foi em outro contexto, sabe, assim de crescimento eu não lembro assim de nada que tenha me afetado, de alguma brincadeira, nem de brincadeira assim sabe, mesmo eu sendo afeminado, tá, falavam, tinha burbúrio, tu via eles, mas sabe, não diretamente, nunca pra me ofender, nunca pra me machucar, nunca senti assim direto, graças a Deus, agradeço, por não ter, sabe, assim não, depois de velho sim sofri alguns atos de homofobia agora, mas nessa transição aí não, entre infância e adolescência.


Wagner: Depois dessa transição, teve mudança no seu ciclo social, na tua família, em decorrência disso?


Renato: Em  decorrência disso, teve assim oh, eu percebi assim, a família da minha mãe é alemã então, e tá eu já sou negro e mesmo assim, depois que eu me assumi eu vi assim que eu, não que eu não, eu acho que eu mesmo me exclui deles, sabe? Não que eles tenham me excluido, eu mesmo que deixei de ir, de frequentar a casa deles, de frequentar encontros de família, mas acho que é uma coisa minha mesmo, que já tava vendo “ai não gosto desse clima, eu não gosto dessa vibe”, mas assim deles eu vi que teve um afastamento sim, teve um afastamento sim, principalmente pela família da minha mãe, a família do meu pai não, foi bem tranquilo. Tanto que eu me assumi primeiro pro meu pai, dai meu pai contou pra toda família, fez toda função de contar e foi  bem de boas assim, nao tive problema nenhum.


Wagner: Tu falou que tinha esse amigo, tu tinha outros amigos LGBTs quando foi crescendo? Na adolescência?


Renato: Primeiro eu tive um amigo gay assim, daí depois a gente foi conhecendo, a gente foi meio  que procurando assim, como eu morava em Bento Gonçalves a gente começou a procurar, porque tinha gays, já tinha gays mais velhos que a gente, e a gente começou a procurar, começou a conhecer.


Wagner: E quando vinha pra bagé, antes desse período agora, tu tinha, foi tendo amigos, conhecendo gente?


Renato: Então assim, eu tinha um amigo aqui, sempre tive um amigo aqui, que era o Marcos. Sempre um amigo, que também era gay assim,  mas o Marcos também, eu conheci o Marcos o Marcos não era assumido também, sabe, tava ainda nessa transição. Ele achava assim, ele dava nuances de ser bissexual, mas ainda ele não se assumia como gay, ele não se posicionava como. Mas era o meu único amigo assim gay aqui.Tinha amigas mulheres, tenho amigas mulheres aqui na cidade, mas assim gay, não são gays, são heterossexuais, e gay assim só o Marcos mesmo, só um amigo.


Wagner: Tu lembra de pessoas que tenham sido importantes, ou nem só da tua volta, mas também referências pro teu processo de construção, tua formação de identidade.


Renato: Pessoas daqui tu diz?


Wagner: Nem só daqui, mas pessoas da tua vivência, ou que tu acha que seriam marcantes na tua formação.


Renato: Deixa eu ver. Aí eu lembro assim de Bento Gonçalves que eu conheci uma travesti chamada Dani Satanás que ela foi muito importante assim, de informação, ela me informou de muitas coisas, até de coisas sexuais mesmo, de educação sexual mesmo. Eu sempre tive uma conversa muito aberta com ela, foi uma pessoa muito importante. Acho que nesse crescimento meu de reconhecer e de, sabe, de buscar, de entender. Não uma mentora, mas foi muito importante. Deixa eu ver, acho que meu próprio amigo, meu primeiro amigo gay, acho que ele foi muito importante pra mim. Tanto de referência, até hoje ele é uma referência pra mim, e acho que ele foi mais meu guru assim de me guiar, de me falar, de me mostrar as coisas. Acho que seria assim, dois amigos, de algo importante que tenha marcado, que tenha, evolui, claro que todas as pessoas me agregam alguma coisa, mas assim de lembrar, de ter como referência, de lembrar olha "essa pessoa realmente me passou muito conhecimento, me ajudou a formar o que eu sou" eu acho que são essas duas pessoas, com certeza.

 

Wagner: E, como é que tu percebia pessoas LGBTs mais velhas quando foi crescendo?


Renato: Sempre vi, sempre vi assim, sempre, principalmente assim, travestis, aqui por Bagé, tinha a Cacão, tinha a Faísca, sempre teve o bloco dos sujos aqui também né, o carnaval, sempre teve uma coisa assim, a, como é que o nome daquela, aquela que tu ia entrevistar também, ela sempre foi muito presente, a Claudia, não é Claudia o nome dela, a Verônica? [A Chris?] A Cris.O Paulo Veiga, eu acho na cidade, assim, o Paulo Veiga é uma pessoa muito importante na cidade, ele agregou muitas gays, empregou muitas gays, sempre teve em prol das gays aqui, não só da sociedade, ele sempre foi muito envolvido com a alta sociedade aqui, antes, enfim, do declínio, mas ele sempre foi muito gay, sempre foi muito pró gay, sempre foi bem ativista, sempre vi ele com as gays, também conheci ele muito cedo aqui, ele sempre foi meio que uma gay, tipo, master aqui na cidade. [Uma suprema?] Uma suprema (risos), ele é uma suprema, ele foi uma suprema, agora eu já to tomando o lugar dele, mas ele foi uma suprema sim, porque ele empregou muita gente, ele educou muita gente, e ele não desamparou, eu acho isso muito importante.


Wagner: Tu pode falar sobre o bloco dos sujos?


Renato: O bloco dos sujos era no sábado, eu acho, era sempre um dos dias do carnaval, onde os homens se vestiam de mulheres e as mulheres de homem. E sempre..., acho que foi..., no carnaval era..., todo carnaval bageense ele é muito gay, todo, todo assim, tanto os blocos de bairros quanto os bloco dos sujos mesmo, todo carnaval ele é feito por gays, tanto de rei momos, rainhas de bateria, mestre-sala, todos esses bailarinos e sambistas são gays, em grande maioria, então o carnaval bageense sempre foi muito gay. Acho importantíssimo pra cidade, acho importantíssimo esse reconhecimento também, tanto artisticamente, quanto culturalmente né. Carnaval é Brasil, e eles sempre tiveram muita voz nesses lugares.


Wagner: E como é que tu percebe a questão LGBT em Bagé antes e agora?


Renato: Eu acho que antes, antes eu via mais, bem mais resguardado, bem mais normativo. [Isso quando tu era criança?] Criança, adolescente, assim os afeminados, os gays mesmo, ou eram travestis ou eram enrustidos, sabe? Tu não via gays assumidos, gays homens assumidos, lésbicas assumidas, se não fosse também essa coisa muito extremista de ou ser um homem ou ser... sabe, como é que se diz, uma mulher masculina ou uma mulher enrustida também, não existia muito um meio termo, era sempre esses dois extremos, porque eu conheci gays aqui só na adolescência mesmo, porque antes disso as minhas figuras de homossexuais aqui ou eram travestis, ou eram transexuais, tanto masculinos quanto femininos, eram sempre travestis, eu não via, não reconhecia um semelhante, porque não via, hoje em dia eu vejo muito mais, hoje em dia eu to na rua, eu vejo, existem gays de todos tipos aqui, tanto normativos quanto afeminados, mas existe, sabe? Tem, tem todos, transitam todos pelos mesmos ambientes.


Wagner: Tu se identifica dentro da sigla LGBT?


Renato: Sim, com o G, sou gay, gay, gay.


Wagner: E tu lembra dessa transição do GLS para o LGBT? Tu pegou esse período?


Renato: Peguei esse período, mas eu nunca foi tão pró ativista a isso, quando eu entrei no mundo gay eu meio que isolei as outras siglas, tipo... eu continuo com uma amiga, sabe? Até as heterossexuais, eu gosto de me envolver somente com gays, eu só gosto de conviver com gays.


Wagner: E o que foi mudando, o que construiu no teu corpo, que mudança teve em ti por essa identidade gay, tu acha que teve coisas que assumiu mais, o que tu acha que mudou em ti?


Renato: Acho que o gay tem o culto do corpo, então eu acho que comecei a me cuidar mais porque eu era mais gordinho, eu não me preocupava tanto com moda, não me preocupava tanto com estética, acho que o gay me refinou muito, ser gay, me assumir gay me refinou muito. Me deixou, sabe, me introduziu em outros meios, me fez eu me amar mais também, acho que, ai com certeza, mudei meu corpo, mas não tive nenhuma, não uma body modificaton, não cortei nada, não fiz nada. Não que não queira fazer, faria, mas não algo como uma mudança de sexo. Mudou sim, fiquei mais vaidoso.


Wagner: Que espaços tu utiliza, ou utilizou para se relacionar com outras pessoas? Tanto aqui em Bagé quanto fora.


Renato: Eu uso minha casa, fodo em casa. [E aplicativos?] Ah, lugar pra caça? Pra caça, pra buscas, eu acho que aplicativos. Eu lembro que eu morava em Montevideo a primeira vez que eu tive o Grindr e quando eu vim pra Bagé eu abri o aplicativo e só aparecia os caras de Pelotas, não tinha nenhum perfil aqui ainda na cidade. [Isso em que ano?] Isso em 2013. Eu entrava no app e não tinha nada, não recebia nenhuma mensagem, só de caras de fora, de Porto Alegre ainda aparecia, era muito pequeno, eu lembro disso. Não que hoje em dia seja tão diferente, mas era realmente assim. O aplicativo sempre me ajudou muito, sempre foi perfeito pra mim. Porque eu sempre fui muito de quero as coisas pra ontem, então acho que esse imediatismo pra se relacionar com os outros é perfeito nos aplicativos. Acho super contemporâneo, acho ótimo. É o que eu preciso. Por isso que o gay se aprisionou a isso, porque é uma facilidade, é um facilitador, tanto pra conhecer e pra fazer outra coisa, não só foder, eu acho que o aplicativo te dá uma outra expansão, tanto de reconhecimento, tu reconhecer, saber quem ta na tua volta, saber quem ta perto de ti. Eu fiz muitos amigos por aplicativos, não necessariamente uso só pra transar, conheci muita gente bacana por aplicativo, agradeço por existir. Mas outra forma que eu uso, sei lá, o chat UOL, chat UOL ainda funciona aqui, o chat TERRA, eu lembro que o Terra eu usava na adolescência aqui. Daí usava o chat Terra primeiro, antes de virar o UOL usava o chat Terra pra caçar. Eu lembro que uma vez marquei um encontro, um dos primeiros encontros que eu marquei aqui, foi pelo chat Terra, foi com um cara, a gente se encontrou ali pela praça Esporte, depois a gente saiu, foi pra casa dele, e foi pelo Terra que a gente se conheceu. Isso eu tinha uns 16 anos, por aí. 2006. Eu uso esses, claro né, eu saio bastante, tô sempre na rua, mas pra busca mesmo os aplicativos, Grindr, Hornet, Scruff.


Wagner: Tu acha que aqui em Bagé tem lugares que tu possa se relacionar? Tu falou que não se sente às vezes tão confortável, quais lugares tu acha que se sente confortável aqui em Bagé?


Renato: Pra transar? Pra ir?


W: Primeiro pra ir, e depois, essa ideia, tu acha que tem lugares que as pessoas usam pra transar?


R: Então, eu sou recebido em todos os lugares bem aqui, mas tem lugares que eu não sou muito, sabe, eu vejo que tem uma... sabe. Não que a qualquer momento vão me mandar embora, jamais, tô ali como consumidor, mas eu sinto sim, que tem lugares que meio [I: sente a tensão] é, tu fica tenso, não me sinto à vontade, daí eu evito falar, eu vejo que já fico meio encolhido.


W: E os lugares que tu fica mais tranquilo aqui?


R: Os lugares? Eu posso citar nome?


W: Pode citar nome se quiser.


R: [conversas incompreensível] ... depois tô proibida de entrar. [risadas] Ai, assim, que eu me sinto à vontade... a Blackout eu me sinto muito a vontade, é uma danceteria que eu me sinto à vontade. Ai gosto e não gosto, tenho uma relação de amor e ódio, é sempre mais do mesmo, mas é um lugar que sempre me recebeu muito bem, que nunca fez nada, nunca me tratou mal. São lugares que eu sinto uma tensão a Speranto, é um lugar que meio que, sabe, que eu não me sinto tão à vontade. A Malp, também não me sinto a vontade. O Gabanna eu me sinto a vontade, mas aí não é minha vibe, nunca fui destratado, mas não é minha vibe.


W: Conheceu uma balada Griffe que existiu aqui?


R: Sim, lembro da Griffe, ia na Griffe, fui bastante na Griffe. Na Griffe de verão e na Griffe ali na galeria. Eles traziam muito shows né, sempre trouxeram muito shows. Então frequentei bastante as Griffe.


W: E como tu falou, conhecia as pessoas pelo Terra, se encontrava na praça, assim, outros lugares, naquela época.


R: Assim, em público eu nunca fodi aqui, não, fudi já, uma vez, no banheiro da praça Esporte. Mas era já com um cara que eu conhecia, e a gente não achou lugar, daí tá, vai, foi. Mas assim, lugares de cruising aqui eu nunca frequentei, tipo, e olha que eu amo, eu faço isso. Faço isso pra minha vida, é uma coisa que eu amo. Amo fazer, acho que faz parte do que eu sou. Do meu terrorismo, do que eu acredito, da minha militância. Mas aqui eu nunca fiz, nunca conheci lugares propícios a isso.

Até mesmo tu tinha me dito que tinha lugar, tinha lá no parque do Gaúcho, eu nunca ouvi falar isso. Nunca ouvi, nunca ouvi, nunca ouvi falar. Assim, lugares de cruising em Bagé. Claro, tu vê as pessoas caçando de carro na rua mesmo, de madrugada, mas de ser assim ponto, tá tem a esquina da CEEE que tu vai  ali, sei lá, se tu quer se prostituir vai prali, mas não é um lugar pra foder, é um lugar pra prostituição. É outra dinâmica. Então não é um lugar que as pessoas vão pra transar. É um lugar que as pessoas pegam alguém pra transar, ninguém transa ali na volta.


W: Aqui em Bagé tem aquele lugar que é conhecido como "praça dos putos", sabe sobre isso?


R: Eu não conheço, sei o que é, sei que meu irmão tem uma oficina ali perto, mas eu nunca conheci. Eu conheci como a praça da..., ali era a antiga estação de trem, estação era ali, ali era a rodoviária, eu conheço por isso. Não conheci como era a praça dos "putos" ali.  Porque eu nunca... assim ponto de "puto" mesmo sempre foi a CEEE ali, esquina da CEEE, aquela rua entre o esquinão e a outra quadra da CEEE. Sempre por ali. Nunca vi ali naquela praça. Tanto que nunca me chamou atenção aquela praça, porque eu nunca vi tanta gente ali. É pouquíssimas pessoas que ficam por ali, nunca vi transitando por ali.


W: Tu percebe preconceitos dentro da comunidade LGBT? Aqui em Bagé? [R: Sim.] Tu acha que tem mudado? Ta melhorando, ta piorando?


R: Eu acho que sim, existe, de fora eu acho mais velado do que de dentro. Eu acho as bichas muito mais preconceituosas, mais assim, elas tão mais se discriminando entre elas. Do que de fora, isso eu vejo real assim. Por que eu nunca percebi nada, eu nunca, como eu nunca sofri nada de fora, eu já sofri coisas de bichas aqui. Sabe? Tanto de falatório, de difamação, coisas assim. Mas de gente de fora não. Então acho que ainda tá, já passou o de fora e tá mais interno o problema. Tá mais entre a gente do que de fora.


W: Nessa ideia de preconceitos internos, quais preconceitos tu percebe dentro da comunidade?


R: Ai, acho assim, acho que as bichas aqui elas são muito normativas ainda, elas têm um.. elas demoram a se assumirem, demoram a se aceitarem, então elas vivem ainda numa normatividade. Então tudo que foge disso incomoda elas. Tudo que é um pouco diferente do que elas são incomoda elas. Eu sinto isso, sabe? Tem, sei lá, em rejeição, em não quererem me conhecer, virarem a cara, coisas assim, por pura ignorância mesmo. Nada assim de... faltou informação mesmo. Falta informação, acho que é real isso.

 

W: Tu percebe que existe a dinâmica ativo-passivo, como se dá ela?


R: Eu acho que Bagé tem uma quantidade maior de passivo do que de ativo.


W: Mas tu acha que isso é uma dinâmica real que acontece entre homens gays?


R: Sim, sim, isso é bem frisado. Bem frisado, sim. Eu friso isso muito também. Então acho que sim.


W: Tanto fora de Bagé também?


R: Fora de Bagé também. Acho que é gay isso. Ou tu é ativo, ou tu é passivo ou tu é flex. Tu tem que se denominar como alguma coisa. Pra conviver em sociedade [risos]. Eu acho que esse posicionamento é importante porque tu tem que se satisfazer, se tu não sabe o que tu quer como é que tu vai ser... imagina se tu é ativo e tu tá sendo, sei lá, oitenta por cento da tua vida sendo passivo, então tá só sofrendo, fazendo uma coisa que tu não quer fazer, tu ta só se forçando a alguma coisa. Eu acho importante ter uma denominação, saber o que tu quer, pra tu não se machucar, pra não tá enfrentando nada sem necessidade. Acho importante ter um posicionamento quanto a isso.


W: Tu já falou desses lugares que envolviam pessoas LGBTs aqui em Bagé, tu lembra de alguns do passado que não tenha comentado?


R: Não lembro assim, porque acho que como eu era muito novo, provavelmente existiam alguns outros lugares mas eu não..., que eu lembre assim são esses.


W: E tu sente falta de alguma coisa? Alguma coisa que tu queria que tivesse aqui em Bagé e sejam marcantes pro público LGBT.


R: Ai acho que essas festinhas da Bubu, a MIX Dance, era bem bacana. Como não era um clube fixo, era itinerante, um dia era aqui, um dia era ali, eu gosto dessa rotatividade, isso ajuda a eu não enjoar do ambiente e acho que seria importante ter uma outra, não uma concorrente, mas uma outra festa gay. Importante.


W: Tu trabalhou tanto quanto pornógrafo quanto cozinheiro, como esses mercados se atravessam com a tua identidade também?


R: Então, eu vivo uma vida dupla, total assim. Eu sou bem low profile, me escondo o máximo, são poucas pessoas que acessam o meu material, a grande maioria tá ali, privadinho, só vai se tu pagar. E a grande maioria não quer pagar por pornografia, quem quer especular não vai pagar. Então eu vivo uma vida bem dupla aqui. Não só aqui, em todos os lugares, poucos os lugares que eu deixei as pessoas me acessarem e descobrirem o que eu fazia fora do restaurante, fora da cozinha, e também fora do set as pessoas saberem onde eu trabalhava, qual era meu emprego fixo, qual era minha renda também. De não envolver, eu sempre deixei bem distinguida as coisas. Claro quem é meu amigo, pessoas íntimas, me conhecem bem, me conhecem por completo. Mas em maioria as pessoas ou conhecem um ou conhecem outro. Ou conhecem o Renato ou conhecem a Ursa Maldita, é outro rolê.


W: Tu já produziu aqui em Bagé?


R: Eu já gravei algumas coisas, gravei em Santa Thereza uns pornos lá, mas ai, gravei assim tipo um POV, primeira pessoa, coisas assim, nada de produção, produzir assim, coisas pequenas só, amadoras.


W: Como tu acha que o público recebe?


R: Aqui? Aqui eu não me sinto a vontade de falar sobre isso, nem me expor sobre isso, porque as bichas são muito moralistas, as pessoas são muito moralistas. E eu não quero tá lidando com o moralismo dos outros. Eu já ultrapassei isso, sabe? Eu não tenho que lidar com isso. Se a pessoa não se resolveu ainda com isso, isso é um problema totalmente pessoal dela, então eu não quero envolver, eu sou de poucas pessoas perto de mim, também. Eu não quero aceitação da sociedade, não preciso disso. Quero fazer meu trabalho, fazer as minhas coisas. Eu quero não me sentir... não quero me sentir mal em nenhuma dessas coisas que eu faço, porque eu faço com amor, faço com vontade, não vejo..., não quero isso pra mim. Por isso eu não explano muito o que eu faço por aqui.


W: Tu falou sobre pós-pornô e pornoterrorismo, quer falar mais sobre isso?


R: Então, eu comecei assim, como eu não queria entrar diretamente no pornô comercial, que eu também tinha, não que um ranço de pornô, eu sempre fui muito ligado à exploração sexual, sempre vi a pornografia... comecei a entender pornografia quando eu comecei a pesquisar sobre pós-pornografia, que também é um outro rolê de pornô, não forçado, mais ligado ao que eu sou, um exibicionista, eu gosto de me exibir, então eu comecei a pesquisar sobre pós-pornografia e entrei primeiro no pós-pornô. Só que o pós-pornô não me dá grana nenhuma né gurias tive que acabar no comercial porque é o que dá grana. Infelizmente a pornografia, o mercado pornográfico, ele é muito cretino, mas ele dá muita grana, e o que dá grana é o comercial. Eles não querem ver corpos diferentes, eles não querem outras manifestações de sexualidade, eles querem o... não o clássico, eles querem coisas novas mas totalmente ligada ao clássico, eles não querem que fuja muito disso, então o que vende mesmo é o pornô comercial. Daí acabei caindo no comercial. Claro, o pornoterrorismo é ainda mais consumível que o pós-pornô, pós-pornô é mais artístico, ele é mais, ele tem outra visão, ele é mais cuidadoso, ele requer mais... ele é mais delicado, com certeza. Pornoterrorismo ele já é mais consumido porque... o gay tem a cultura do cruising, de foder na rua.


W: Pornoterrorismo é?


R: É de foder em lugares públicos, outs públicos, tanto banheiros publico, parques, lugares públicos. Isso é um terrorismo, atentado ao pudor. Sabe, tu tá num lugar público, tá lá fodendo, esse é o pornoterrorismo, estar fodendo em lugares públicos, basicamente isso.


W: Voltando a questão de Bagé, sobre as pessoas que tu conhecia quando foi crescendo, pessoas LGBTs, como é que tu acha que elas se relacionam com a cidade.


R: Eu sempre lembro desse êxodo assim, as pessoas ficavam um pouquinho aqui, já vazavam iam pra Pelotas, iam estudar em Pelotas, iam para Porto Alegre, iam para Floripa. Poucas gays resistiram, tanto que o mercado de trabalho é complicado aqui, o que tu pode.. o que as gays daqui fazem, ou são professoras ou são cabeleireiras, elas não têm outras profissões aqui, são só essas. É foda o mercado de trabalho aqui, então eu sempre vi esse êxodo de emigração, as pessoas largando daqui, por falta de oportunidade mesmo, não tem como ficar, pra não ficar dependentes tanto de pai, não que tivessem condições de ficar na cidade, têm, mas, sabe, de não aceitar mesmo o pouco que têm.


W: Tu tem alguma crença ou religião?


R: Aí eu acredito em tudo, acredito em tudo.


W: Alguma coisa atravessa a tua identidade sexual?


R: Aí eu acho que sim, com certeza, eu acredito muito em vários deuses, eu tenho vários deuses, e alguns pagãos, e geralmente esses pagãos eles tem ritual com sexo, eu gosto muito.. eu sou muito sexual, até antes de começar a trabalhar com porno eu já sabia que queria fazer alguma coisa com o sexo. Ou estudar o sexo, ou fazer o sexo, trabalhar com o sexo, com o prazer, então eu acho que essa coisa do profano, sagrado e profano, sempre teve muito presente, com certeza. Acredito em Baco, acredito em Jesus, acredito em, saber, em Shiva, Ganesha, eu acredito em vários deuses, hindus também, que tão ligados ao sexo, mais ao profano, e sim é totalmente ligado sim com o meu lado sexual, acho que tem importância sim.


W: Agora uma questão mais histórica e política também, tu sente que em Bagé tem uma comunidade LGBT?


R: Tem, tem assim ó, eu vejo que tem mas não é tão unida, mas têm. Se alguma precisa elas se envolvem pra fazer alguma coisa, se algo realmente danifica a comunidade, algo realmente agride a comunidade elas se juntam pra fazer algo. Existe, existe sim. Tanto de reconhecimento, até mesmo, assim, oitenta por cento das gays de Bagé são enrustidas, elas se reconhecem, sabem que se uma é debilitada, elas também vão sentir isso, eu vejo que existe uma empatia, elas são empáticas. Então existe uma comunidade sim, por mais que seja, que não seja unida.


W: Lembra de alguma movimentação nesse sentido?


R: Ultimamente sim, eu lembro do caso, daquele que a gente foi na praça, do Diego, que eles foram agredidos, ele e o... o outro menino, foram agredidos na Malp eu acho, daí rolou uma manifestação na praça Esporte, eu lembro disso assim. A última coisa que eu lembro, antes disso eu lembro de algumas paradas, sempre muito fracas, muito fracas, as paradas gays não funcionam aqui. Por isso eu acho, quando algo realmente acontece, elas se movimentam. Elas não veem a parada gay como uma parada de luta, elas não veem isso como luta, mas quando vê que algo realmente aconteceu, quando um ato aconteceu, quando uma violência aconteceu, isso sim mexe muito mais as pessoas aqui. Elas não são militantes, mas elas se importam, elas têm empatia umas pelas outras. Acho que elas se reconhecem, nos reconhecemos como gays, como, não como irmãos, mas como iguais, como semelhantes, então acho que existe sim.


W: Tu falou que as pessoas não pensam talvez a parada quanto uma luta, tu acha que isso por causa de uma questão de?


R: Ah, de exposição mesmo. Elas não querem se expor, elas não querem se expor até serem obrigadas a se expor. Eles precisam do estopim pra se expor, eles não querem se expor, eles veem isso como uma bobagem, realmente veem. Tanto que ninguém aparece, tem um público de sei lá, 30, 40 pessoas.


W: Sei lá, teve a primeira que aconteceu em 2015, 2016, teve um público até legal, teve umas 200 pessoas, é realmente uma coisa que vêm mudando. [Olha, que legal]. Tem aquela questão, as paradas, a questão da festividade, do fervo, tu acha que isso é importante?


R: Com certeza, fervo é luta baby. Fervo é luta, eu quero tá na rua, eu quero estar me divertindo sempre. Eu acho isso importantíssimo em qualquer lugar, por isso é importante ter casas, ter lugares para onde a gente possa ir, onde a gente possa se sentir a vontade. Não só pra se divertir, pra conhecer gente, mas pra fazer parte da sociedade também, de ter lazer, acho que a gente merece lazer. Então o fervo é luta sim, com certeza.


Igor: Tu acha que o diálogo das pessoas que criam chega na periferia, aqui chega?


R: Não chega,  eu acho que não. Porque, assim, o gay periférico de Bagé, ele sai muito cedo daqui, ele larga muito cedo daqui, ele forma o caráter dele já fora daqui. Ele já não se sente à vontade aqui, então acho que com certeza seria importantíssimo ter conversas, ter alguma coisa nas comunidades, em prol disso, porque acho que isso é um dos principais fatores de ter o êxodo, da galera já sair daqui, porque ela já não se sente à vontade, não se sente parte daquilo, e também não se reconhece, e precisa sair. Não vejo que tenha uma voz dentro das comunidades, claro, o carnaval é uma voz, acho importante, mas assim outros, não vejo, não vejo uma voz da comunidade, não vejo, infelizmente.


W: Tu acha que Bagé tem tido avanços, ou nem necessariamente avanços, mas tipo, mudanças que envolvem a questão LGBT em Bagé?


R: Eu acho que, como agora, eu vendo agora Bagé, em 2019, com uma diversidade muito maior, com vários tipos de gays, com vários estereótipos de gays, eu acho que tá muito melhor. Tanto pra viver, pra conviver, vejo pouquíssimos casos de homofobia, transfobia, tanto que a grande maioria das travestis daqui tem grana, tem o seu salão, tem o seu trabalho, tem a sua casa, tem as suas coisas. Acho que tá evoluindo sim, são profissionais bons, tão tendo acesso a educação, tão tendo acesso a muita coisas.


W: Como tu acha que o Brasil tem mudado nessa questão LGBT?


R: Aí o Brasil em geral, ai eu não sei, sabe, é que eu vivo tanto nessa bolha que eu entendo aonde eu vivo, agora botar no contexto geral, do Brasil, eu não saberia te dizer, porque eu acho que noventa por cento do brasileiro é homofóbico, e nós somos, sei lá, cinco por cento da população, é muito pouco, então, geral assim de evolução, tá a gente tem o direito agora, a gente pode casar, a gente pode adotar, temos vários direitos, evoluímos bastante. Eu acho que tá... bom, ta com o Bolsonaro aí, não tem como ficar bom, mas não perdemos ainda esses direitos, ainda tem políticas públicas voltadas pra gente, tanto pra nossa saúde, tanto pra HIV, quanto pra educação sexual. Acho que a gente não tá bem, a gente não ta top, mas em algum momento a gente vai ficar.


W: Cê comentou sobre a questão do HIV/AIDS, tu acha que é uma coisa que é ainda conectada com a questão LGBT, como é que tá tratada.


R: Eu acho que sim, como a gente não tem ainda a educação sexual, ela não entra na comunidade, ela não entra em âmbitos marginalizados, ela vai, ela sempre vai tá envolvida com a gente sim, não que a gente seja assim a mina da coisa, o núcleo da coisa, mas a gente se relaciona muito, a gente transa, a gente vai atrás, a gente troca muito de parceiro, então ainda tá relacionado sim, porque, principalmente assim, eu, eu Renato, eu sou um safado e eu não tenho um parceiro fixo, então isso, sempre vai ter uma rotatividade e eu sei que existem trilhões de semelhantes como eu, então ainda tá ligado sim.

 

W: Como tu acha que é tratado dentro, e fora também?


R: Porto Alegre é o maior índice de soropositivos do país há mais de 10 anos, então Porto Alegre é o lugar que mais tem soropositivo, eu acho que assim,  evoluiu muito, muito, muito, tanto do começo do AZT, que era a primeira medicação, até agora que são medicações ultra modernas, que não te dão quase efeito colateral nenhum, coisas assim, acho que tem um avanço sim, acho  que o Brasil inteiro têm um avanço. Tanto com o PreP, agora o PreP sendo circulado, ainda em Bagé não tem, infelizmente Bagé não tem, no interior não têm, mas eu lembro assim, eu comecei a usar o PreP em 2016 também, quando eu cheguei em Porto Alegre, e era um grupo de pesquisas da USP, e eu ganhava 50 pila toda vez que eu ia lá pegar a medicação e me testar, fazer o exame, vê se eu tava fazendo coisa, porque eu já era considerado um grupo de risco. Eu sou gay, eu já tava começando a trabalhar com pornografia, daí eu lembro que um amigo me falou "aí tu não quer ganhar uma grana, vamo lá fazer então, tão testando TRUVADA" já tinha escutado sobre o PreP, e outras coisas, fora do país, em outros fóruns, em outros núcleos, já era usado, já circulava, só que no Brasil ainda não tava circulando. Fui cobaia, fui cobaia da PreP.


I: E tu acha que existe um suporte aqui em Bagé?


R: Pra HIV? Pra soropositivos? Acho, acho maravilhoso, eu conheço o SAIS ali, conheço o Geisman, amo ele de paixão, acho ele muito carinhoso, muito cuidadoso com os pacientes dele, com a galera, eu acho muito importante. Eles têm... claro, é muito pequeno, e não é precário, é pequeno mas não é precário. Porque eles tem tudo, só não tem a PreP ainda, mas eles têm todos os tratamentos, até pra crianças de HIV. Esses dias eu conversei com a farmacêutica que a medicação de criança ela é líquida, ela não é em comprimido, ela é bem complicada, acho eles bem avançados, bem assim, de boas, acho perfeito, tanto em rapidez. Eu conheço em Porto Alegre é muito complicado, eu conheço muita gente que foi diagnosticada soropositiva e assim olha, pra começar o tratamento demorou mais ou menos uns três meses, em três meses tu pode morrer, entendeu? Se tua carga viral tá muito alta, tu já começa a... teu corpo já começa a morrer por dentro, o bicho já começa a te comer, então, aqui é pra ontem, sabe, tu é diagnosticada tu já sai dali com tua medicação. Eu acho isso fantástico, isso é humano. Fantástico e humano. Eu acho que Bagé tem um suporte muito bom sim, tem o SAIS, que é muito bom, que seria modelo pra muitos lugares, pra muitas capitais, com certeza, e olha que Porto Alegre é um dos maiores pesquisadores da doença, têm muita galera trabalhando em cima, e mesmo assim eles são muito... ta vou dizer ai tem muita gente, não, eu acho que o serviço público lá é muito fraco, é muito preguiçoso.


W: Tu estuda a questão LGBT, tu é informado, primeiro eu quero saber quais referências culturais/artísticas tu tem de pessoas pra tua construção artística que sejam dentro dessa temática.


R: Dessa temática, eu gosto muito de pesquisar o homoerótico, tudo que tá ligado ao homoerótico eu to pesquisando, eu to indo atras, eu tenho como referência. Acho que dá literatura Caio Fernando Abreu foi um dos primeiros a me abrir esse lado pro homoerótico, que eu não tinha ainda..., eu não podia usar a internet, que a minha mãe era da Bola de Neve uma época daí, eu tive acesso a internet com 15 anos, quando eu fui morar com meu pai, com 14, porque minha mãe não deixava eu pesquisar, nem na escola, a gente usa o laboratório e não podia usar o computador, que era uma coisa do demônio, enfim N coisas, e ela era bem louca, ela foi sempre muito rígida, e eu sempre li muito, ela sempre fez eu ler muito, eu e meus irmãos, ela estimulou isso daí, mas, assim, eu comecei a ter referências, tipo gays, estéticas... o pornô mesmo, sempre me ajudou muito com isso, sabe? Quando eu comecei a consumir pornografia acho que eu comecei a perceber o gay nas coisas, não só na putaria, mas linkar com outras coisas, cinema também, acho que o Pasolini, assim, eu sou fã do Pasolini, acho que é minha referência mór assim, de, até de terrorismo, porque o Pasolini era um terrorista, referência mór assim no cinema é o Pasolini, na literatura Caio Fernando Abreu, Jean Genet também, que é uma bicha bem bafo, lembro que eu assisti primeiro o Querelle, que é um dos primeiros filmes gays, e ele é escritor, já escreveu várias peças daí eu comecei a procurar, pesquisar, e me apaixonei, me apaixonei pelo Genet também, deixa eu ver, deixa eu ver quem mais. Ah, a Vera Verão, sempre foi uma referência assim, saltão, de estética, mais de estética mesmo, de drag, uma coisa bem over assim, eu sempre gostei também do over, por mais que na minha vida eu seja muito simples mas o over me encanta assim, me prende a atenção. Mais brasileiro assim, de referência, que mais eu posso te dizer, Ney Matogrosso, sempre foi, Secos e Molhados.


W: Nessa história do movimento, na tua história de vida também, tu acha que teve algum momento, tu acha que teve esses momentos que marcam mais, uma liberação, conseguindo direitos, ou até, mudanças marcantes da história, que tu acha que seja marcantes por um momento ou conseguindo direitos, como no caso Stonewall, mas aqui no Brasil.


R: Ai, eu acho que quando foi aceito o casamento gay né, com certeza, isso foi assim algo bem marcante, primeiro foi aceito a união estável, depois foi aceito o casamento, casamento, eu lembro dessas coisas, eu acho que foi em dois mil e... não lembro do ano, mas eu acho que foram bem marcantes, de poder, não que, eu sempre pensei vou casar, sempre tive uma coisa meio que normativa na minha cabeça. Quando eu escutei que eu poderia casar com outra pessoa, meu companheiro, ter os mesmos direitos, conseguir um matrimônio, isso foi bem importante. Mas também eu acho que, importante mas nem teve muita bicha casando né [risos] quase nem vi as bichas casando, não fui convidada pra nenhum casamento, mas eu achei importante, acho que socialmente é importante, não que a gente queira casar, mas é importante a gente saber que a gente tem esse direito, sabe? Acho que é isso, não lembro de outros momentos, acho que de uns anos pra cá acho que, culturalmente, acho que teve um boom, com certeza, as pessoas elas tão menos normativas, tão saindo da bolha, elas tão mais informadas, elas tão antenadas com o que tá acontecendo no mundo e em tudo, eu acho que teve um boom de uns quatro anos pra cá. Essa coisa também do não ao gênero invadiu lojas de departamento, invadiu a música, invadiu tudo, isso é muito importante, isso realmente foi um boom, porque isso foi uma desconstrução, as pessoas começaram a se desconstruir, desconstruir o gênero delas, a entender o gênero do outro, a pensar sobre, a ter um link sobre. Por mais que tu não esteja totalmente envolvido isso começou a aparecer, essas discussões começaram a aparecer, isso aparece em tudo, bem em tudo, entra na moda, moda, comportamento, é tudo.


W: Lembra se em Bagé teve muito marcantes essas discussões, ou coisas assim?


R: Eu lembro assim, eu lembro de algumas coisas, eu lembro em Bagé em dois mil.. eu vou ver as datas certas pra te falar, o Eduardo Ruiz, fazendo parte de um seminário de educação... foi quando lançaram o Kit Gay pro MEC, eu lembro que eu assisti esse Kit Gay, antes dele ser proibido, antes dele ser circulado também em todas as escolas. Era meio que um fórum de diversidade, e era ministrado pelo Eduardo Ruiz, eu lembro que eu fui lá, foi ali no Estadual, no teatro do Estadual. E eu lembro disso, eu lembro que eu conheci o Kit Gay, vi os vídeos, o que que tinha no material do Kit Gay, que era da Dilma né, era do tempo da Dilma ainda, mas isso antes dele ser aprovado, isso foi antes dele ser aprovado. Infelizmente ele não circulou nas escolas esse material. Não era um material assim, agressivo, era um material bem didático, bem didático mesmo, infelizmente não circulou. Porque eles gastaram muito, tanto em produções quanto em material, e isso tá tudo, sei lá, não se botaram fogo, o que que fizeram com esse material. Muito triste, porque não foi distribuído em nenhuma escola. Foi discutido em alguns fóruns, alguns colóquios, algumas coisas, foi dado pra algumas pessoas, foi liberado pra algumas pessoas já começarem a discutir e aprenderem a trabalhar isso, então não foi aberto pra todo mundo, infelizmente.


W: Tu acha que tu se envolve na luta LGBT?


R: Eu me envolvo mas eu sou muito preguiçoso. Eu me envolvo quando vejo que alguém tá sendo... eu odeio qualquer tipo de injustiça, ainda mais ligada a isso, sabe, eu não tolero nenhum... então se eu vejo isso, o problema é eu ver, a partir do momento que eu vejo isso com certeza eu me coloco, me posiciono, vou atrás, vou saber. Me posiciono sim, meu corpo é político, o que eu faço é política, o pornô que eu faço é político, então sim.


W: Tu percebe diferenças de gerações aqui em Bagé, mais novos e mais velhos, que tu conhece e são também LGBTs?


R: Eu to analisando ainda isso, sabe? Ontem mesmo, a gente conversando, tu me falou uma coisa que fiquei pensando. Meu, será que é isso mesmo, da geração ser toda flex, será que é isso? Que eu já to estagnado em um pensamento? Mas eu ainda não percebo direto, claro eu sei assim que tem as cacuras, eu sei como elas pensam, as bichas velha, elas são mais recatadas, são mais normativas, a geração mais nova não é tão aberta, tão desconstruída não, mas tá se desconstruindo, não é tão desconstruída mas não é tão otária como a geração mais velha, não tá desconstruída mas não tá recriminando, a geração mais velha ainda tá recriminando o que tá sendo desconstruído, não tá aceitando o novo. Já o novo não é tão desconstruído, não recrimina o velho e não recrimina o que vai vir, entendeu? Isso eu percebo, isso é nítido, mas assim de resto não sei te especificar.


I: E quais os desafios atualmente tu enxerga na comunidade LGBT?

R: Eu acho ainda o emprego aqui, o mercado de trabalho é muito limitado, não só pro gay né, acho na cidade. O mercado de trabalho é muito complicado, ele é mesquinho, ele é arcaico, ainda trabalha com indicações não com  o teu currículo, isso desmotiva muito, acho que o maior problema que a comunidade gay enfrenta ainda em Bagé é o mercado de trabalho. Porque acho que a aceitação isso não é um problema, acho que todos aqui são muito bem amados, são poucos casos assim que tu vê foi expulsa de casa, foi isso, pouquíssimos casos, eu pelo menos conheço poucos casos aqui, essa bicha os pais fizeram algo, não, pra te dizer acho que não conheço nenhuma.


W: Tem essa questão do tradicionalismo, da figura do gaúcho, tu acha que isso é algo muito forte em Bagé?


R: Sim, a gente é uma cidade tradicionalista, mas acho que nao vejo muito problema com isso, é importante manter tuas tradições, o que tu não pode manter é o preconceito, manter um ranço, a involução, acho que a tradição tá aí e a tradição não é totalmente ligada à homofobia e ao machismo, ela existe porque ela é uma tradição, é um costume que as pessoas querem manter, querem preservar. É uma cidade que, sei lá, a economia daqui ela é agro, então isso vai perdurar, isso vai vingar, não tem... oitenta por cento da nossa economia é agricultura.


W: E tu acha que atravessa essa questão do gaúcho e identidade LGBT? De que maneiras??


R:  Assim, claro, o gaúcho ele é muito machista, mas também o gaúcho além de ser machista, isso é uma coisa que já a gente carrega, o gaúcho também é visto como homossexual, todo gaúcho fora do estado, veem o gaúcho como puto, não só por Pelotas mas em geral. Eu não vejo tanta distinção assim, acho que é bem aceito.

W: Tu acha que teria alguma coisa importante pra falar ainda?


R: Eu espero que as coisas andem, caminhem, caminhem com o mundo pra gente não ficar só isolado, se alienando nas nossas bolhas aqui, isso acontece, porque Bagé é uma cidade solitária.


W: Tu vê no teu futuro alguma relação com Bagé?


R: Eu acho que sim, eu vou morrer aqui em Bagé, farei questão disso.


I: Acha que existe aquela maldição de ir e voltar? [risos]


R: Eu sou a prova viva dessa maldição, eu sou a prova viva dessa maldição. [risos] Eu sempre volto pra cá, ou pra ficar uma semana, pra ficar um mês, pra ficar um ano, essa última vez que eu vim vou fechar um ano aqui, eu sempre venho pra cá, eu gosto daqui, eu me sinto bem aqui, reenergizado aqui,  eu recarrego as minhas baterias aqui, sempre, então eu acho que sim, eu sempre vou voltar pra cá.