THAIS SAUCO

14 de Novembro, 2019

Entrevista do Igor Neto Paz com Thais Sauco, 24, mulher, lésbica, estudante de música na Unipampa.

 
 

Igor Neto Paz: Bom esse é o Projeto Memória LGBT de Bagé procura garimpar toda a história LGBT até o momento então a gente tá conversando com várias pessoas de diversas idades e no final a gente vai transcrever isso e mostrar. Eu gostaria que tu começasses falando o teu nome a sua idade se você trabalha ou estuda?


Thais Sauco: Eu sou Thais tenho 22 anos e eu estudo curso música na Unipampa


INP: Qual a tua relação com a cidade de Bagé?


TS: Na verdade, eu nasci em Aceguá não nasci aqui me criei em Bagé, minha família é de Bagé, a relação com Bagé é próxima e não próxima na verdade eu nunca me senti pertencente a Bagé.


INP: E como é o teu contexto familiar?


TS: Sou criada com minha mãe. Em alguma fase da minha vida eu fui criada com minha vó e meu pai, e aí não deu certo por motivos que ser criada por pai e avó é estranho. Morei muito tempo com minha mãe e agora moro sozinha.


INP: E como foi o teu convívio escolar até este presente momento?


TS: Então eu nunca fui uma pessoa de muitos amigos assim sou das poucas amizades o Ensino Fundamental foi muito difícil foi bem horrível por motivo de nunca me encaixava direito em nada e uma questão muito forte que aconteceu que me marcou muito que na 7º serie a diretora chamou minha vó na época que eu morava com minha vó e ela disse que se eu não mudasse o jeito de me vestir eu teria de sair da escola, que eu estava influenciando as pessoas a serem como eu mas eu nem entendia o que estava acontecendo porque não era nada sabe... não fazia sentido na minha cabeça e ai depois no ensino médio foi mais tranquilo por questão de ser um escola maior também parou um pouco o bullying e ai eu nunca tive muitos amigos de colégio meus amigos nenhum era meu colega ensino médio foi tranquilo


INP: E na faculdade?


TS: Então na faculdade é um processo estranho porque a gente entra e tem amigos, a gente entra, assim— e teve muitos processos eu estou um ano a mais na faculdade do que deveria então... foi na universidade que eu me descobri eu entrei em 2015 em 2016 eu tive meu primeiro relacionamento LGBT e foi muito louco porque na verdade— Eu só acho que isso foi possível— mesmo a pessoa sendo de fora da Universidade— só foi possível por eu estar aqui, mesmo que os meus amigos fossem os mesmos de fora então não foi— eu tenho um melhor amigo que conheço só por causa da universidade— não meus amigos eram os mesmos desde o ensino médio mas acho que essa questão assim— Mas eu nunca fui muito de estar com muitas pessoas então sou uma pessoa muito discreta, não de relacionamento mas de amigos, então sou meia solitária.


INP: E como foi o seu processo de se reconhecer quando LGBT?


TS: Então no ensino médio eu tive minha primeira paixão LGBT só que eu não aceitava, sabe? Meus amigos todos diziam que eu era super apaixonada pela mana e eu negava até a morte mas passou graças a deus e ai eu me descobri de um jeito muito aleatório assim porque uma mana veio falar comigo e ai foi tipo “huumm serase?” Mas eu levei um tempo e depois que eu me descobri eu cometi uns processos de alto e violência assim, sabe? Aquela coisa de não experimentou direito daí eu fui lá buscar macho para ver se era isso mesmo. Foi muito dolorida assim. Eu demorei um tempo talvez uns dois anos até me engatar sabe de me  aceitar mesmo que não era um desvio.


INP: Mudou alguma coisa na tua vida depois que tu se reconheceste?


TS: Mudou acho que principalmente as relações. Me distanciei de muita gente que não rola chegar perto. Essas pessoas não chegam perto de mim, eram ”meus amigos,” não são mais porquê— mas assim com relação a felicidade e tal eu acho que não porque sei lá acho que não.


INP: E pra ti como foi se perceber LGBT?


TS: No mínimo questionável sabe porque eu sempre me senti não pertencente. Eu nunca me senti hetero. Mas eu também nunca me senti lésbica então eu sempre fui muito outsider. Ai quando eu descobri que eu sentia atrações por  meninas e que isso podia acontecer e era possível foi uma explosão, sabe? Nada fazia sentido, por mais que eu tivesse meios que favorecessem isso, que eu não estava sendo presa por isso. Meus amigos não entendiam, mas eu não me entendia. Foi sempre muito difícil eu me entender me reconhecer na verdade porque eu sou uma mulher que não performa tanto feminilidade mas eu também não sou tão caminhoneira, sabe? Então foi difícil chegar a esse ponto e perceber que tá tudo bem não ser nenhuma dessas coisas. Está tudo bem só ser o que tu é. E aí tentar parar de ficar se encaixando em algum lugar assim é muito violento isso. Eu tentei muitas vezes tanto performar feminilidade, que foi um fracasso, e quanto assim ser muito masculina, e eu não me sinto confortável de nenhum jeito, então só vai sabe. E é muito fluido tem dias que hoje eu quero botar um vestido e tem dias que eu vou sair de boné pra galera passar por mim e ficar “oi?” Afinal tu é ou tu, não é?


INP: Quais foram as figuras que te inspiram?


TS: Eu não sei mesmo não teve uma pessoa que eu me sentisse representada nesse processo, pessoa próxima ou figura Cultural. De uma coisa assim não. Hoje em dia a gente vai seguindo pessoas mas não teve uma pessoa assim que eu olhe e sinta que é o meu ideal. Não o ideal de ser essa pessoa mas de idealizar.


INP: Tu percebes pessoas LGBTS mais velhas?


TS: Poucas e não tão mais velhas, mais ou menos uns 40 anos muito mais velhas não.


INP: E como tu percebe Bagé na questão LGBT?


TS: Eu acho que não é uma comunidade forte, tem muita gente e a galera se mexe, só que a galera se mexe de um jeito que só quando precisa muito. Eu não me relaciono com movimentos diretamente, eu sou dessas também. Tô falando mas, sou dessas que não me mexo, só quando acontece uma coisa muito grave. Mas eu não sei, tem essa coisa assim de não me sentir a vontade, de eu não me sentir parte principalmente pela criação. Eu fui educada numa sociedade onde eu não socializava muito, então as vezes eu prefiro ficar mais na minha assim mas acho que tem um movimento tem uma gurizadinha, eu acho que essa gurizada que vai movimentar o negócio daqui a 3, 4 anos a gente vai ver um cenário muito diferente que a gente tem.


INP: Qual ou quais espaços existem na cidade pra explorar a tua sexualidade?


TS: As festa umas blackouts da vida, tem outras ... assim eu não gosto de festa então é na minha casa “oi vamos assistir um Netflix”.


INP: E como são as suas estratégias para se relacionar?


TS: Bah eu não me relaciono, sabe? é muito difícil chegar me relacionar com uma pessoa porque eu tenho um bloqueio real, oficial, então eu não chego. Se eu tenho atração, a pessoa nunca vai saber que eu existo quanto maior o interesse mais longe eu vou ficar dela. Então hoje eu tô em um relacionamento muito feliz e Tinder e foi isso .


INP: Tu conheces algum lugar algum lugar onde as pessoas possam ter sexo na cidade?


TS: Não.


INP: E como você se aproxima das pessoas que tu tens interesse?


TS: É um longo processo longo mesmo mas assim geralmente eu não me aproximo mas quando eu me aproximo tem que ser ao contrário, sabe? Eu sou muito come pelas beiradas. A pessoa tem que se aproximar porque eu não consigo me aproximar e não consigo chegar e “oi tudo bom tenho interesse.” Eu faço todo uma jogada pra pessoa entender que eu tenho interesse pra ela me chamar e chegar em mim. Eu sou muito tímida... metódica.

 

INP: E tu percebeu mudanças no corpo na maneira de vestir depois que se assumiu?


TS: Sim o cabelo principalmente e mas por uma questão de liberdade de me sentir livre comigo mesma sempre tive o cabelo comprido e eu não gostava de cuidar do cabelo então meu cabelo comprido era horrível depois que eu cortei o cabelo eu passei a me sentir melhor e parar de ligar pra roupa e tal então principalmente o cabelo e fiz umas tatuagem bem sapatão largadona, anel de coquinho toda a cosmologia a gente tem que exercer.


INP: E tu percebe preconceito na comunidade LGBT?


TS: A sim acho que é o pior tipo de violência o LGBT contra o LGBT muito forte eu tive um  processo da faculdade e tal que tive que conviver com um menino LGBT cis branco era um processo de muita violência o tempo todo ele estava sempre sendo violento comigo e sendo violento com outros meninos LGBT ai eu ficava muito indignada com isso mas ele infelizmente não e o único e é muito forte isso e a galera cis tem uma coisa de não consegui conceber pessoas que não são cis sabe ou que não performam  essas cis sexualidades foi muito bizarro e eu acho que tem um apagamento muito grande da galera bi sabe a galera bi sempre é a galera que esta confusa ou é a galera que está fazendo pra se aparecer e isso é muito dolorido porque porra é um processo pra ti  e ai quando as pessoas acham que vão te dar apoio elas tão lá te julgando sabe estão virando as costas e rindo de ti.


INP: Como foi te assumir para as pessoas próximas?


TS: Meus amigos assim nunca precisei de me assumir porque eles sempre souberam sabiam antes de mim pra minha família também só que eles não aceitam então eu sou assumida pra minha mãe só que é quem importa o resto da família as vezes perguntam “ e os namoradinhos” e eu fico... eles sabem óbvio eu não escondo sabe tem foto tem coisas nas redes sociais e tal não escondo de ninguém mas também não ando me assumindo porque minha família é muito pesada assim então... mas o processo com minha mãe foi bem tranquilo assim tenho que estar me assumindo toda a semana porque ela fica “ tu não vai casar” “não vai ter filhos” mas eu posso casar e posso ter filhos só não vai ser com um homem querida.


INP: E tu tinha amigos LGBTS? Tem?


TS: Sim.


INP: E tu manteve mesmo ciclo social depois que tu se assumiste?


TS: Sim com exceção tinha duas amigas pessoas que eu era muito apegada que cortaram totalmente a relação.


INP: E qual foi a importância dessas pessoas na tua personalidade?


TS: É toda meus amigos  toda no meio eu não consigo conceber a minha existência sem eles sabe porem que que hoje em dia a gente esteja meio assim pelo mundo porque foi um processo que tipo não tinha minha família comigo sim meus amigos eram tudo mais que às vezes não bata ou querem se matar mesmo não se aguenta mais mas acho que sem eles eu não conseguiria sabe eu não conseguiria o mínimo não ia sobreviver.


INP: Tu sentes a comunidade LGBT daqui unida?


TS: Não eu acho que é união com quem é conveniente sabe unido por conveniência acho que escolhem muito sabe eu acho que se vira muito as costas pra muita gente eu acho que numa camada de Bagé assim a margem da margem que é a galera que esta lá na vila mesmo tem a galera que está na vila mas tem acesso e tem a galera que esta lá e não tem esses acesso e eu acho que a comunidade LGBT de Bagé vira muito as costas não que seja vira as costas mas não se preocupam com as outras pessoas e briguinhas e coisas.


INP: Sobre as paradas LGBTS, tu achas que elas têm força aqui?


TS: Eu acho que ela tem um valor político pra mim estar participando delas é muito grande acho que uma força externa talvez não talvez quem está não sabe nem tá acontecendo mas acho que é importante pra quem está nela e quem vai e muitas vezes precisam disso precisa se reconhecer se enxergar mesmo que seja se enxergar em um lugar completamente diferente de ti mas se enxergar também diferente do resto é muito importante que essa força política hoje em dia ela tem isso pelo menos a última edição teve e os encontros promovidos sabe quando galera se promove a gente sempre tem uma força política muito forte e fica tudo muito emocional.


INP: E sobre a comunidade mais afastada tu acha que essas paradas elas conseguem até essa população?


TS: Eu acho que não por muitos motivos primeiro porque essa população tem medo de ir pro centro e tem uma galera que não quer ir na parada significa que alguém pode tirar uma foto tua vai aparecer e tal e sem falar de um monte de coisas sabe horário de trabalho da galera e nem fica sabendo as vezes o negócio é divulgado onde se está no busão colado em lugares que as pessoas peguem e realmente não atinge.


INP: Partindo sim para os eventos, mas governamentais estatais tu achas que existe?


TS: Eu acho furada sabe, aqui pelo menos sei que tem cidades e tem uns movimentos massa que a galera partidária se move mas aqui geralmente é muito furada é para tirar foto e colocar lá quando for se eleger e não tem problema também se o cara quer se reeleger mas faz um negócio de verdade sabe, mas faz uns troço administrado por pessoas hetéros e fica tudo ao contrario e apressado e não respeitam e não dão voz pra ninguém só eles falam e acho que tem um descaso muito grande e problemático em Bagé que é o que acontece com a saúde eu sei que teve recentemente aquele congresso de saúde LGBT só que por um lado achei muito legal ter essa ação mas não foi aberto as pessoas não se sentiram a vontade e era algo completamente voltado pra profissionais de saúde mas a maioria das pessoas que foram ou era da saúde mesmo ou o pessoal que organizou e eu sinto muita carência disso tu vai no SAIS e não tem sabe elas não sabem como entender elas acham que tudo é a mesma coisa...saúde é muito problemática e se tenta falar disso é tipo “ a olha nos trouxemos estudos que apontam” mas não resolvem nada sabe legal ter o estudo mas tu vai fazer o que com ele... é restrito a alguns e de certa forma muito elitizada sabe é só pra ‘eles’ mesmos.


INP: Tu achas que pra HIV Aids tem um suporte aqui para galera?


TS: Cara  eu acho que não, porque tipo ir pra fazer o exame tem tá tudo bem só que se não tá tudo bem e a gente sabe que o  emocional da pessoa ia ficar muito abalada e a saúde mental de Bagé é algo horrível e daí eu não sei como funciona não sei quais são os processos disso mas eu não saber também significa algo eu acho que não tem essa abertura sabe que muitas vezes eu fui fazer o exame e tu se sente julgado Sabe pela pessoa que vai te fazer o exame é mega violento sabe as pessoas não pensam que tem um tipo de relacionamento entre duas mulheres cis que não tem um preservativo que seja completamente eficaz então tem que estar fazendo exame toda a hora e isso é um saco, é um saco tu conhecer a pessoa e ó está aqui meu exame só que ok acho saudável só que é ruim sabe porque tu tem que estar fazendo esse exame toda a hora e sendo julgada pelas pessoas sabe desde a moça do balcão que vai perguntar o que tu está fazendo o que que tu quer a quero fazer o exame e a pessoa vai dizer poxa de novo tu não conhece camisinha tipo o tempo inteiro com relação a especificamente o público LGBT e talvez o público trans é pior ainda muito pior e a gente não vê falar nada não tem nada sobre isso não cartaz nenhum nem informação na cidade e se a cidade tem alguma coisa eu acho que não adianta nada ter se as pessoas não tem acesso a informação sabe a possibilidade pra ajuda porque é difícil procurar ajuda.


INP: E em âmbito nacional tu acha que acontece esse diálogo? 


TS: Eu acho que não os locais que ocorrem esse diálogo são assim pontuais sabe são governos são municípios ou estados que se preocupam com isso uma ideia de nação que se preocupa e que  todas as cidades tem que ter tal coisa, não sei la mas propaganda na tv não adianta sabe “respeitem o coleguinha” não faz ação .


INP: Como foi para ti a mudança da sigla GLS para LGBT sentiu?


TS: Na verdade assim quando eu me descobri e comecei a frequentar e ver mais as coisas já não era mais GLS e não faz nem sentido falar GLS e assim fico feliz pelas coisas irem porque GLS não faz nenhum sentido e eu entendo que um momento era o que rolava mas fico muito feliz pela sigla ir crescendo e a gente conseguir se adaptar e falar mais tipo é LGBT+ é bom conseguir abranger outras pessoas. Porra tu já é todo fudido na sociedade e ainda não tem nem uma letrinha ali na sigla que te represente.


INP: E como tu vê a resistência das pessoas aqui, como elas resistem?

TS: Eu acho que cada pessoa tem o seu meio de resistir e aqui é uma cidade muito violenta simplesmente pela pessoa existir ela já está resistindo e não precisa a pessoa sair com bandeira LGBT nas costas sabe eu sinto que a galera aqui resiste muito e só que é muito solitária esse resistência por mais que tenham grupos por mais que tenham os movimentos a resistência é muito solitária e falar em resistência é falar em existir quanto LGBT em Bagé as é menos que resistir é existir mesmo porque é muito difícil tu se entender e tu conseguir sabe fazer o mínimo pegar o ônibus sem alguma pessoa ficar te enchendo o saco sem a pessoa tirar o filho de perto de ti porque acha que é contagioso.

 

INP: Como tu acha que o brasil tem mudado em questão LGBT?


TS: Eu acho que a gente vinha mudando tendo avanços não vou dizer evolução porque evolução é forte estávamos tendo avanços significativos e importantes só que a gente está vivendo um momento que está tudo bem ser homofóbico que é certo e que é errado ser qualquer coisa que não seja família tradicional brasileira e está tudo bem em ser preconceituoso e ser violento e homofóbico e racista ai tu só pede desculpa e está tudo bem tudo resolvido então eu acho que relação a toda a trajetória que a gente teve de conquista nas últimas décadas elas estão muito a mercê e também significa que também foram políticas e ações que não foram bem planejadas porque se fossem elas estariam correndo perigo agora e se elas estão além do governo não querer elas é porque também o governo anterior não pensou que se eles saíssem outra pessoa ia vir e tirar facilmente então eu acho que as preocupações que se tem se resolvem pontualmente vou botar panos quentes aqui e ninguém está vendo o que está acontecendo por de baixo e porque está assim é algo sério é como se fosse uma bactéria que se prolifera e a gente não tem controle porque quando se controla é meio auto imune.


INP: E tu acha que isso se aplica em Bagé, tem esse diálogo?


TS: Bagé não tem nada eu acho muito pior porque eu pelo menos não me sinto confortável de sair de mãos dadas minha namorada é de outra cidade e na cidade dela a gente consegue aqui não consigo e quando eu me dispus a fazer isso foi tenso e eu entendo que o problema não ocupa posição de privilegio porque se é difícil pra mim imagina pro resto das pessoas sabe mais a margem que eu e é difícil sabe o tempo inteiro alguém falando alguma coisa ou te olhando ou não chegando perto ou fazendo comentário do tipo “ARRGH” acho que aqui é mais difícil ainda toda essa cultura que Bagé tem de gaúcho, a cidade muito gaúcha, que o  gaúcho é viril hetero é muito difícil assim acho aqui muito difícil acho que a cidade tem alguns pontos que podem estar mudando talvez tenha haver com uma mudança  mais global mas é tipo o cinema chega muito depois.


INP: E nessa perspectiva gaúcha to consegue trazer pra perto o que é ser gaúcho e LGBT?


TS: Não, não sou gaúcha sabe são coisas que não coincidem porem da gente estar numa realidade que não  sei se é verdade ou não mas tem muitos boatos que o nosso governador é LGBT não é assumido e ser gaúcho assim a imagem do gaúcho não condiz mas assim por diversas maneiras eu nunca me senti muito gaúcha não gosto de música gaúcha e etc. mas assim acho que tirando o sotaque tem poucas coisas que me caracterizam como gaúcha porque não faz parte de mim assim essa cultura a persona rio grandense.


INP: Como tu tem relaciona com a luta LGBT?


TS: Tem um defeito muito que eu tenho que é ser muito medrosa tenho medo mesmo de tudo no mundo, uma relação direta com a luta é muito raro, é muito raro eu ir pra rua só que eu tenho uma coisa que é muito forte em mim que eu considero como principais qualidades é que eu tenho muita empatia sabe eu não consigo ver uma pessoa sofrendo e só deixar isso acontecer sempre que eu posso que eu tenha saúde mental pra conseguir lidar com isso eu tento sabe tento muito ajudar as pessoas de tentar não deixar as pessoas sozinhas sabe porque a luta é solitária e a minha relação com a luta é mais indireta não é de ir pra rua e dar a cara a tapa se precisar eu dou Eu não tenho medo de falar de defender as pessoas só que eu evito lugares com muitas pessoas juntas porque me agonia coisas assim mas o meu papel na luta é mais de ser a pessoa que escuta.


INP: E como tu vê o afeto aqui na cidade?


TS: Eu não sei por que eu sou uma pessoa afetiva eu sou só afeto, talvez a cidade seja afetiva porque tem gente insuportável aqui mas as pessoas te dão entrada.


INP: Como é ser mulher LGBT na música?


TS: A mulher LGBT na música  ela tem uma função muito Maria Gadú então assim existe Maria Gadú e não existe mais ninguém eu sei que existe mas quando se para ora pensar em mulheres LGBTS na música as pessoas pensam que tu tem que ser Maria Gadú por quê praticamente é imagem que as  pessoas tem de pessoa LGBT na música e de mulher LGBT na música só que assim é muito difícil ser mulher na música e ai ainda ser LGBT é um processo mais difícil ainda ai tem coisas que eu ainda não superei sabe então está sendo difícil me posicionar enquanto mulher nessa área e entender esse meu lugar depois desse ainda tem que ser uma mulher LGBT que eu sei que não são coisas diferentes mas assim um passo de cada vez sabe porque está sendo bem difícil me posicionar eu não tô sozinha assim eu me sinto sabe eu me sinto sozinho e eu me sinto às vezes não confortável para falar assim tipo em mulher LGBT como está nessa discussão e a gente acabou de chegar na mulher e ainda é mulher branca europeia e etc. muito difícil chegar na mulher negra, ok chegamos na mulher negra e a mulher negra LGBT cadê daí essa então nem existe e a mulher negra trans na musicam não tem é muito apagado que a música tem essa cultura de ser ocidental e masculina É muito difícil tu romper com essas coisas o tempo inteiro porque tu está sempre rompendo coisas sempre o tempo todo com pessoas em todas as conversas ai vem pessoas com um papinho de instrumento de homem instrumento de mulher, mulher só canta mulher LGBT que ser voz grave contralto tocar violão se não toca está sendo sapatao errado ai esses processos são muito difíceis principalmente aqui no curso as pessoas não estão acostumadas das turmas anteriores eu fui a primeira assumida então agora tem uma galera sabe tipo eu fico muito feliz por ter uma galera e a galera interagir e conversar mas foi muito difícil assim ser essa primeira pessoa ser a pessoa que abre as portas.


INP: E como é o ser LGBT também, mas se pôr na frente de uma turma, de uma escola?


TS: Nossa é que são dois lados sabe é muito bonito quando tu teve sendo referência é muito bonito quando tu te vê pra aqueles alunos que é LGBT e que esta sempre sofrendo e se diminuindo e ai ele vê em ti uma possibilidade e isso acontece o tempo inteiro em todas as turmas tu vai ser uma referência pra alguém só que por um outro lado é muito difícil porque pros alunos tu é só isso a ela é uma mulher LGBT ela não é professora eles não conseguem conceber que eu essa mulher que não performa feminilidade que anda com cabelo curto é professora inclusive no pré eu dei aula pros pequenos e mais de uma vez, eu já sofri uma violência absurda de um aluno do pré e ele não assistia minhas aulas ele fechava a porta quando eu ia pra aula ele fechava a porta com tudo e quando obrigavam ele não falava comigo ele não direcionava a palavra a mim  e ai um dia foi minha professora orientadora e ele participou mas foi só com ela isso não é direto eu estava no estágio e eu não tive coragem de dizer isso pra professora orientadora não tive coragem de dizer olha tem um aluno que tem problema comigo tipo eu não falei isso eu só falei tem um aluno que é difícil e eu não sei o que fazer com ele mas eu não falei que eu estava sentindo que o problema era eu e agora no outro pré mas esse eu consegui resolver sozinha também maturidade tinha um menino e ele estava chorando e eu fui perguntar o que tinha acontecido e ele brigou comigo ai eu mobilizei toda a turma pra ver quem tinha brigado com ele porque não pode brigar é feio brigar e ele brigou comigo não me deixou jogar ele quem ele e o ele que ele tanto falava era eu daí ei sentei do lado dele e expliquei que meu nome era Thais e perguntei porque tu acha que eu sou ele e ele respondeu porque tu tem cabelo curto não é professora é professor e tinha uma colega que tinha cabelo raspado e tu conhece ela e ela é menina a mas ela está sempre de capuz ai tu para e percebe a violência que a mana está sempre de capuz nesse caso não era o pré e ela não tirava nunca o capuz e ai tu ser a professora que está ali na frente e tem o cabelo curto sabe no final ela já estava tirando o capuz e os grandes também tem um menino trans no 7º ano e a violência que ele sofre o tempo todo dos colegas e dos professores tipo ai quando eu cheguei eu não tinha nem percebido estava lá aquela galera super nervosa e ai alguém falou e eu perguntei como tu quer que eu te chame? E ele falou Giovane, então vai ser Giovane essa criatura consegue conceber que um aluno de 8º ano que vem na rua e vem me dar um abraço cara não alunos de 8º ano odeiam professores eu só chamei ele pelo nome sabe ele quer ser chamado é um papel que é determinante pra mim porque a gente está em uma realidade ainda que não é comum que um colégio onde só tem professoras que não entendem e não querem entender que não respeitam tu estar se ressignificando a vida  daquelas crianças que tá dando possibilidade para eles porque até então eles não sabiam que era possível achavam que só professora loira bonita de preferência mais de 50 anos que pode ser professora a vida deles é aquela ali sabe é ser tratado como traficante e viver até os 25 quando muto .


INP: Tu achas que ser uma educadora musical te deixa mais próximo das pessoas?


TS: Acho que sim mas não porque tem o lado que eles não te levam a sério porque é música e ai até tu conseguir fazer com que eles entendam que é a aula e que eles estão pra aprender é um pouco difícil. Mas por outro lado te aproximam muito porque o jeito que eu tenho de fazer eles se aproximarem é através do sentimento, sabe? O que vocês gostam porque vocês gostam vocês gostam porque vocês sentem coisas então vamos falar sobre esses sentimentos vamos falar sobre essa música não vamos falar sobre outra música que vocês não conhecem. Eu tenho uma ligação muito forte com os meus alunos os grandes porque eu não tenho alunos pequenos faz tempo e uma abordagem assim e é muito estranho porque eu não vejo essa ligação com os outros professores sabe acho também por uma questão de idade sabe não tenho essa distância deles e ai é fácil o convívio, entender os memes mas a música aproxima ou ela te afasta completamente ou ela te aproxima.


INP: E na Unipampa tu te sente contemplada com os professores e o todo?


TS: Representatividade não mas sim violência já sofri eu tenho questões pessoais que vão além disso mas nosso curso (música) é muito forte nas cadeiras de educação que é aquele monte de gente que pesa já foi muito dolorido terminar as cadeiras da educação acho que foi muito difícil por isso por a galera começar a apresentar trabalho e começa a ser violento começa a pesar ficar fazendo piadas nosso curso tem só que no nosso curso eu tenho a liberdade de falar pra pessoa que ela está errada, só que é um processo muito difícil pra mim então só que às vezes eu não falo porque eu odeio ser notada e eu me sentir contemplada nos corredores da Unipampa. Além do curso não eu sou a pessoa que procura não ser notada eu já falei e todas as vezes que eu falo eu fico pensando que falei demais só que eu sei que isso é violência comigo mesma que não é que eu seja tímida só que eu fui silenciada por muito tempo eu fui educada a não falar então toda vez que eu falo e me arrependo mesmo eu estando no meu direito de fala é muito difícil porque tu está aqui e não vai rolar e se não quiser conversar não vem conversar comigo só pra me agredir e rola muito isso às vezes vem me perguntar coisas que elas não querem saber ou assim muito fetiche escancarado as pessoas nem escondem.


INP: E quais as figuras do teu meio que tu te sentes bem?


TS: Tem duas pessoas que na verdade elas não são do curso e nem são LGBTS mas são duas pessoas que me cativam que a professora Diana e a outra eu não me lembro o nome mas ela é da saúde foram pessoas que me permitiram falar em aula me permitiram participar das aulas na verdade ninguém me proibi de falar eu tive turmas de estagio que só tinha eu de mulher eu não falava nada e eu passei o semestre inteiro sem falar nada sabe e só falava com a professora por e-mail quando eu fui me dar conta disso já tinha passado e eu tinha deixado caras tomarem conta e o curso tem muito disso de as pessoas não respeitarem as mulheres de não respeitarem as professoras então ficar vendo quietinha no meu canto não me posicionar é muito doloroso e tiveram essas duas pessoas que deixaram eu me posicionar que eu me senti confortável de alguém falar algo na aula e eu falar olha não é bem assim sabe ser bem didática.


INP: Alguma mensagem que tu queiras passar?


TS: A gente não pode desistir.